Política e Resenha · Coluna de Opinião
“DEUS MISERICORDIOSO,O DEIXAI QUE SEJAMOS
INGRATOS COM QUEM NOS FAZ O BEM!” Ana Isabel Rocha Macedo
Padre Carlos
Teólogo · Cronista · Poeta
Há gestos que não têm nome. São menores que um abraço e maiores que um discurso. São a mão que segura sem que você tenha pedido. São o silêncio que acolhe quando as palavras falhariam. São o copo d’água trazido na hora certa, a palavra dita no exato momento em que a alma estava prestes a desmoronar.
Eu os chamo de graças humanas — e tenho medo, um medo profundo e antigo, de que estejamos nos tornando incapazes de reconhecê-las.
I. O ESQUECIMENTO QUE CORRÓI
Existe uma forma silenciosa de crueldade que não usa faca nem grito. Ela opera no esquecimento. No olhar que desvia. No “obrigado” que nunca chegou aos lábios de alguém que recebeu tudo.
Conheço pessoas que deram anos de suas vidas ao serviço dos outros — anos inteiros, reais, irreversíveis — e que um dia se viram sozinhas, sem que ninguém se lembrasse de perguntar: como você está? Conheço mães que cozinharam décadas de amor em panelas esquecidas. Professores que depositaram sabedoria em almas que depois não se viraram nem para acenar.
Essa ingratidão não é apenas uma falha moral. É uma ferida que sangra por dentro de quem a recebe.
“E sangra por dentro de quem a pratica — ainda que ele não saiba.”
Padre Carlos Josaphat
II. O GESTO QUE SALVA
Permita-me um desvio pela memória.
Tinha dezessete anos quando atravessei pela primeira vez as portas de uma comunidade de base em Belo Horizonte. Era jovem, arrogante à minha maneira, e carregava uma certa desconfiança em relação ao mundo — aquela desconfiança que os jovens usam como armadura quando estão, na verdade, com medo.
Um homem de mãos calejadas — não sei mais seu nome, e talvez seja melhor assim, porque os anjos raramente precisam de nome — chegou perto de mim com um pão partido ao meio.
“Você veio de longe. Coma.”
Só isso.
Mas naquele pão havia algo que os filósofos levam séculos tentando nomear: havia o reconhecimento de que eu existia, de que minha fome era real, de que eu merecia ser visto.
Trinta anos depois, ainda carrego esse pão em algum lugar do peito.
III. A TEOLOGIA DO GRATO
As grandes tradições espirituais da humanidade — sem exceção — fundam-se numa única convicção: a vida é dom, não conquista.
O hinduísmo canta prasad — a graça que desce. O judaísmo ensina hakarat hatov — o reconhecimento do bem, literalmente “reconhecer o bem”. O islã ergue sua fundação sobre o shukr — a gratidão como forma de adoração. E o Evangelho — que é o chão onde planto meus pés e minha fé — diz, sem rodeios, pela boca de Deus feito carne:
“Não foram dez os que foram curados? E os outros nove, onde estão?”
Lucas 17,17 · Evangelho
Onde estão.
Essa pergunta atravessa os séculos como uma flecha. E ainda ressoa. E ainda dói. Porque os nove foram embora. Foram viver. Foram celebrar sua cura. E nenhum deles parou sequer um segundo para voltar e dizer: foi você. Obrigado.
Deus, que é misericordioso por natureza, não precisava do agradecimento. Mas nós, os seres humanos que recebemos e damos, nós precisamos. Precisamos para não nos perdermos de nós mesmos.
IV. O PERIGO DO CORAÇÃO ENTUPIDO
Há um tipo de coração que, de tanto receber sem perceber, vai se entupindo.
Como canos velhos que acumulam ferrugem por dentro — por fora parecem intactos, continuam funcionando, conduzindo a água de um lugar para outro. Mas por dentro a ferrugem cresce. E um dia a água deixa de passar.
“A ingratidão é essa ferrugem. Ela começa pequena — e vai crescendo, silenciosa, até que o coração perde a capacidade de sentir o bem que recebe.”
Padre Carlos Josaphat
E quem não sente o bem que recebe, não consegue mais dar bem a ninguém. Torna-se uma campânula de vidro — perfeita por fora, sufocante por dentro.
Eu vi isso acontecer com pessoas boas. Isso é o mais perturbador: não são os maus que mais me preocupam. São as pessoas boas que deixaram o esquecimento fermentar dentro delas até que a bondade murchou.
V. PEDAGOGIA DO OLHAR
A gratidão não é um sentimento espontâneo. É uma disciplina.
Precisa ser ensinada, cultivada, praticada com a mesma atenção com que um músico afina seu instrumento antes de tocar. E começa — sempre começa — pelo olhar.
Olhar de verdade para quem está ao nosso redor. Não o olhar fugaz que classifica e segue em frente. O olhar que demora. Que pergunta. Que diz: eu vejo você. Você importa. O que você fez por mim não desapareceu no ar — está aqui, dentro de mim, vivo.
Quando uma criança aprende a dizer “obrigado”, ela não está apenas aprendendo boa educação. Ela está aprendendo a reconhecer que não está sozinha no mundo. Que existe uma rede invisível de cuidados que a sustenta. Que ela não se fez a si mesma.
Essa é uma das verdades mais revolucionárias que um ser humano pode aprender. E muitos de nós, adultos feitos e acabados, ainda não a aprendemos.
VI. A ORAÇÃO QUE É TAMBÉM GRITO
Deus misericordioso — e uso essas palavras não como fórmula, mas como invocação real, urgente, nascida de uma inquietação que não me larga — não deixai que sejamos ingratos com quem nos faz o bem.
Não nos deixeis esquecer o professor que ficou depois da hora para explicar de novo.
Não nos deixeis esquecer o amigo que atendeu às três da manhã sem reclamar.
Não nos deixeis esquecer os pais que venderam sonhos próprios para comprar os nossos.
Não nos deixeis esquecer o vizinho que abriu a porta quando estávamos com fome, o estranho que parou na estrada, o médico que tratou com carinho quando podia ter tratado com pressa.
Não nos deixeis esquecer.
Porque esquecer é uma forma de morrer por dentro. E a ingratidão, ao final, pune mais quem a pratica do que quem a sofre.
VII. CODA — O QUE FICA
No fim da vida — já vi isso muitas vezes, acompanhando pessoas na hora em que o véu se afina — não são as conquistas que ficam. Não são os títulos nem os bens.
Fica o que foi dado. E fica o que foi recebido com graça.
Fica aquele pão partido ao meio por mãos calejadas.
Fica o abraço que chegou na hora certa.
Fica o nome de quem nos salvou — mesmo que a gente não se lembre do nome. Porque o gesto permanece, inscrito em alguma camada funda do que somos, como letra gravada na pedra.
“Por isso, hoje, aqui, diante de você que lê estas palavras — eu quero dizer obrigado.”
Padre Carlos Josaphat
Obrigado a quem cuida sem aparecer. A quem serve sem pedir. A quem ama com a paciência que o mundo não merece, mas recebe assim mesmo.
E peço — ao Deus que é misericordioso porque é, antes de tudo, capaz de ver cada gesto humano em sua inteireza — que afaste de nós a seca do coração. Que nos mantenha úmidos de gratidão. Que não nos deixe morrer de esquecimento.
Porque o bem que alguém nos faz não é pequeno.
É, muitas vezes, tudo.
Vitória da Conquista, Bahia.
Padre Carlos Josaphat é teólogo, cronista e colunista de opinião. Escreve regularmente para o blog Política e Resenha, onde aborda temas de fé, cultura e vida pública.




