Política e Resenha

Carta a Geraldo Júnior: Entre a Espera e a Dignidade

 (Padre Carlos)

Prezado Geraldo Júnior,

Escrevo-lhe não como quem observa de longe, mas como alguém que acompanha, com atenção e inquietação, os movimentos silenciosos da política — aqueles que não aparecem nos discursos, mas que gritam nos bastidores.

Hoje, mais do que nunca, é preciso falar de algo que a política tenta esconder atrás de acordos e articulações: amor próprio. Sim, meu caro vice-governador, amor próprio. Aquele que não se negocia, não se adia e, sobretudo, não se submete.

É preciso, em algum momento, bater na mesa. Olhar ao redor e dizer com firmeza: “Chega. Cansei. Coloquem quem quiserem.” Porque a política é dinâmica, aberta, e — como o senhor bem sabe — há sempre portas que se fecham, mas outras que se escancaram.

A história recente da Bahia está repleta de movimentos que mostram isso. Otto Alencar fez seu caminho, César Borges atravessou pontes políticas, Angelo Coronel também reposicionou sua trajetória. A política não é estática — ela é feita de decisões, e, sobretudo, de coragem.

E é justamente essa coragem que parece estar sendo colocada à prova neste momento.

Enquanto a oposição, sob a liderança de ACM Neto, avança na montagem de sua chapa com definições cada vez mais claras, o campo governista ainda se perde em impasses, especialmente na escolha da vice. A demora, meu caro Geraldo, não é apenas um detalhe técnico — ela se transforma em narrativa, em desgaste, em exposição desnecessária.

Seu nome circula. Outros tantos surgem — 300, dizem. E o senhor, ocupando a vice-governadoria, permanece à espera de uma decisão que insiste em não chegar.

Sei que sua postura tem sido de respeito. Sei que o senhor tem mantido equilíbrio e confiança na condução do processo pelo governador Jerônimo Rodrigues. E isso é digno. É, inclusive, admirável.

Mas permita-me a franqueza que só uma carta pode ter: paciência, quando prolongada demais, pode ser interpretada como conformismo.

O MDB Bahia, com o respaldo de lideranças como Geddel Vieira Lima, tem sido firme ao reivindicar aquilo que considera legítimo: a manutenção da vaga de vice. E não se trata apenas de espaço político — trata-se de reconhecimento, de compromisso e de palavra.

Nos bastidores, todos sabem: a demora cobra um preço. E esse preço, muitas vezes, não aparece nas urnas — aparece na percepção pública, na leitura fria que o eleitor faz de quem espera demais.

Meu caro Geraldo, há momentos em que permanecer é estratégia. Mas há outros em que permanecer é abdicar.

Talvez tenha chegado a hora de o senhor olhar para si mesmo e perguntar: “Até quando?”

Porque, no fim das contas, a política pode até ser feita de alianças — mas a dignidade é uma construção solitária.

E inegociável.

Com respeito e inquietação,

Padre Carlos