Política e Resenha


Artigo de Opinião · Política & Sociedade

A Juventude e a Política:
Do Engajamento Militante
ao Clique Digital

Da Ação Católica às redes sociais — uma longa trajetória de formação, resistência e transformação da consciência política jovem no Brasil

Por Padre Carlos · Política e Resenha

A juventude nunca foi indiferente à política. O que mudou, ao longo das décadas, foi o caminho por onde ela se forma, se informa e se posiciona. Há uma história longa — e pouco contada — de como a esquerda brasileira moldou gerações inteiras de jovens, da missa campal ao manifesto, da biblioteca ao feed do Instagram.

Houve um tempo — especialmente nas décadas de 1950, 60 e 70 — em que o jovem politizado buscava, com disciplina quase militante, a formação nos clássicos do pensamento marxista. Lia-se Karl Marx, Friedrich Engels, Antonio Gramsci, não apenas como referência, mas como fundamento. A política era, antes de tudo, um exercício de estudo, reflexão e construção teórica. E foi precisamente nessa ambiência que a esquerda brasileira encontrou, nos jovens, sua base mais fértil e sua trincheira mais corajosa.

Mas essa hegemonia não nasceu apenas dos partidos e dos sindicatos. Nasceu também — e talvez sobretudo — de dentro da própria Igreja Católica. Uma história que merece ser resgatada com toda a sua complexidade.

I

A Ação Católica e a Formação de uma Esquerda com Raízes no Evangelho

Nos anos 1950, enquanto o Brasil vivia o desenvolvimentismo jubiloso de Juscelino Kubitschek e a euforia das Copas do Mundo, algo silencioso e poderoso fermentava nos porões das paróquias e nas salas de reunião dos colégios católicos: a Ação Católica. Organizada em ramos específicos — a Juventude Universitária Católica (JUC), a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Operária Católica (JOC) e a Juventude Agrária Católica (JAC) —, a Ação Católica representou um dos mais extraordinários laboratórios de formação política que a América Latina jamais conheceu.

O método era simples em sua enunciação, mas radical em suas consequências: Ver, Julgar e Agir. Inspirado no cardeal Cardijn, o processo pedagógico convidava o jovem a observar criticamente a realidade social, submetê-la ao crivo do Evangelho e comprometer-se com a transformação do mundo. Não era catecismo passivo. Era formação para a ação.

“A JUC não formou apenas cristãos comprometidos. Formou militantes. E muitos desses militantes, ao se depararem com a brutalidade da desigualdade brasileira, descobriram que o Evangelho e o marxismo falavam, no fundo, do mesmo escândalo.”

— O Autor

A JUC, em particular, tornou-se um espaço de ebulição intelectual sem precedentes. Jovens universitários, em sua maioria filhos da classe média católica, começaram a questionar a ordem estabelecida com os instrumentos que lhes fornecia a própria fé: a dignidade da pessoa humana, o amor preferencial pelos pobres, a denúncia da injustiça. Figuras que depois se tornariam centrais na vida política e intelectual do Brasil — como Herbert José de Sousa, o Betinho — passaram pela formação da JUC. Não por acaso.

O salto decisivo veio com a fundação da Ação Popular (AP), em 1962. Nascida do esgotamento dos limites institucionais da JUC — que a hierarquia eclesiástica passou a pressionar diante de sua radicalização —, a AP representou o momento em que a juventude católica de esquerda cruzou formalmente a fronteira entre o engajamento pastoral e a militância política revolucionária. Não se tratava de abandono da fé, mas de sua consequência lógica: se Cristo estava nos pobres, era por eles que se devia lutar — até as últimas consequências.

II

A UNE, o Movimento Estudantil e a Resistência à Ditadura

A União Nacional dos Estudantes — a UNE — havia nascido em 1937, mas foi nos anos de chumbo que ela se transformou em símbolo. Depois do golpe de 1964, enquanto sindicatos eram intervencionados e partidos eram proscritos, o movimento estudantil tornou-se um dos poucos espaços de resistência organizada que restavam ao país. A sede da UNE, incendiada pelos grupos de extrema-direita na noite do golpe, foi o presságio de uma longa batalha.

Os jovens universitários não apenas protestaram — organizaram. Realizaram congressos clandestinos, mantiveram redes de solidariedade, produziram jornais mimeografados e mobilizaram passeatas que desafiaram os tanques nas ruas das principais cidades. O ano de 1968 foi, para o Brasil como para o mundo, o ano em que a juventude colocou a ordem estabelecida em xeque. A Marcha dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, em junho daquele ano, foi talvez a maior demonstração de coragem coletiva da história política brasileira recente: estudantes, artistas, intelectuais, mães e operários marchando juntos contra uma ditadura que armava seus aparelhos de repressão.

Memória Histórica

Em outubro de 1968, o XXX Congresso da UNE realizou-se clandestinamente em Ibiúna, no interior de São Paulo. Mais de 700 delegantes foram presos numa única operação policial. Entre eles, nomes que depois percorreriam décadas da política brasileira: José Dirceu, Luis Travassos, Jean Marc Von Der Weid. A ditadura queria decapitar o movimento estudantil. Conseguiu prendê-lo por algum tempo. Mas não conseguiu apagá-lo.

O AI-5, decretado em dezembro de 1968, inaugurou os anos mais sombrios da ditadura. O movimento estudantil foi forçado à clandestinidade. Muitos militantes optaram pela luta armada — o que resultou em mortes, prisões, torturas e exílios. Outros mantiveram o trabalho de formação e organização nas bases. A repressão foi brutal, mas não total. As universidades continuaram sendo, mesmo nos anos de pleno autoritarismo, espaços de resistência cultural e política.

Com a distensão “lenta, gradual e segura” promovida por Geisel a partir de 1974 e a revogação do AI-5 em 1978, o movimento estudantil voltou à superfície com toda a força represada. A reconstrução da UNE, em 1979, no Congresso de Salvador, foi um momento de euforia coletiva. A juventude voltava às ruas — e desta vez, para não mais sair.

III

Correnteza e Viração: A Disputa pelo Coração do Movimento Estudantil

A redemocratização não trouxe unanimidade. Trouxe, ao contrário, a disputa aberta entre diferentes correntes políticas pela hegemonia no interior do movimento estudantil. É nesse contexto que emergem, com particular vigor, duas tendências que marcaram profundamente a política universitária brasileira nas décadas de 1980 e 1990: a Correnteza e a Viração.

A Correnteza, vinculada ao campo comunista — inicialmente ao PCB e depois a setores que dialogavam com o PT e com o movimento sindical do ABC — representava uma tradição de organização disciplinada e formação política consistente. Herdeira da pedagogia dos círculos de estudo e das células de base, valorizava a construção coletiva, a paciência organizativa e a capacidade de articular o movimento estudantil com as lutas mais amplas da classe trabalhadora. Não era apenas uma corrente eleitoral — era uma escola política.

A Viração, por sua vez, nasceu de uma sensibilidade diferente — mais plural, mais aberta às novas agendas que emergiam no horizonte político: feminismo, questão negra, ecologia, direitos sexuais. Sem abandonar a tradição de esquerda, a Viração propunha uma ampliação do sujeito político da transformação social. O estudante não era apenas filho do proletariado — era também portador de identidades múltiplas, de demandas específicas, de experiências que o marxismo clássico, em sua forma mais ortodoxa, tendia a secundarizar.

“A Correnteza plantava o grão com paciência de lavrador. A Viração soprava o vento que espalhava as sementes. O Brasil precisava das duas.”

— O Autor

A disputa entre essas correntes — e tantas outras que animavam os DCEs e a UNE — não era apenas uma querela de bastidores. Era a expressão viva de um debate estratégico que a esquerda brasileira nunca conseguiu resolver completamente: quem é o sujeito da transformação? Quais são as prioridades da luta? Como articular classe e identidade, universalidade e diferença, estrutura e agência?

Essas questões, longe de serem resolvidas nos congressos estudantis, encontrariam décadas depois um novo palco — e uma nova linguagem — nas redes sociais.

IV

A Contribuição Decisiva: A Juventude que Derrubou a Ditadura

Seria injusto reduzir o fim da ditadura brasileira a uma única causa ou a um único sujeito. A abertura foi resultado de um complexo processo que envolveu pressões externas, disputas internas no regime militar, o desgaste econômico, a mobilização sindical do ABC e a resistência cultural dos artistas e intelectuais. Mas seria igualmente injusto não reconhecer o papel central e insubstituível que a juventude — especialmente o movimento estudantil — desempenhou nesse processo.

Foram os estudantes que primeiro tomaram as ruas quando o regime ainda ameaçava com violência qualquer dissidência. Foram eles que mantiveram viva a memória dos mortos e desaparecidos, que circularam os nomes proibidos, que recitaram os versos censurados. Em 1984, durante a campanha das Diretas Já — o maior movimento de massas da história brasileira —, era a juventude que pintava os rostos, que fazia as faixas, que enchia as praças com uma energia que nenhuma repressão conseguia conter inteiramente.

Legado

A geração que fundou o PT, construiu a CUT, criou o MST, e elegeu Lula em 2002 havia, em sua maioria significativa, começado sua formação política no movimento estudantil — nas fileiras da JUC, da AP, da UNE, nos DCEs, nas correntes como Correnteza e Viração. O Brasil democrático que emergiu dos anos 1980 carregava, impresso na pele, as marcas dessa formação.

Há uma linha direta, que a história muitas vezes não traça com clareza suficiente, entre o jovem que se reunia às quartas-feiras na sala paroquial para estudar a encíclica Mater et Magistra com os olhos da JUC, e o operário que nos anos 1980 parava a fábrica em São Bernardo do Campo, e o parlamentar que nos anos 1990 votaria contra a privatização da Petrobras. São a mesma geração, moldada por décadas de formação, resistência e luta.

V

A Virada do Milênio: O Fim de um Mundo e o Nascimento de Outro

A chegada do século XXI não foi apenas uma mudança de calendário. Foi uma ruptura de paradigma. A globalização neoliberal havia redefinido as regras do capitalismo mundial, enfraquecido os sindicatos, fragmentado as identidades coletivas e introduzido uma nova lógica de vida: a do indivíduo empreendedor de si mesmo, responsável exclusivo por seu sucesso ou fracasso. O coletivo cedeu espaço ao individual. A solidariedade de classe foi substituída pela competição generalizada.

Nesse contexto, a vitória de Lula em 2002 representou, para a esquerda e para o movimento estudantil que a havia formado, uma espécie de coroação histórica — mas também o início de uma desorientação profunda. O partido que havia nascido da luta de fábrica e da teologia da libertação chegava ao poder e precisava governar num mundo radicalmente diferente daquele que o havia gerado. A tensão entre a utopia fundadora e a realidade do poder foi, e continua sendo, uma das questões mais dramáticas da esquerda brasileira.

E enquanto essa tensão se processava no interior das organizações políticas adultas, uma nova geração chegava à maioridade em um ambiente radicalmente novo: o da internet e das redes sociais. Uma geração que não havia lido Engels nos grupos de estudo paroquiais, que não havia disputado eleições no DCE com papel e caneta, que não havia sequer conhecido o Brasil anterior ao Plano Real. Uma geração que aprendia política no Google — e depois no YouTube — e depois no Twitter — e depois no TikTok.

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VI

A Sala Mudou. A Política Não.

Há uma ideia que circula com frequência nos meios políticos e acadêmicos — a do “afastamento da juventude da política”. A ideia não é totalmente falsa, mas é profundamente imprecisa. O que os dados mostram, com consistência crescente, é que o afastamento se reflete sobretudo no momento do voto e na participação nas formas tradicionais de organização — partidos, sindicatos, diretórios estudantis — mas não necessariamente em outras formas de engajamento e posicionamento político.

A juventude continua interessada em política, talvez até mais do que antes. Mas sua formação não passa mais, majoritariamente, pelos livros densos ou pelos círculos acadêmicos. Ela acontece em tempo real, nos grupos de WhatsApp, nas timelines das redes sociais, nos vídeos curtos, nos memes, nas narrativas rápidas e emocionalmente carregadas. A política deixou de ser um processo lento de elaboração para se tornar uma experiência imediata, quase instintiva.

Essa mudança de meio alterou profundamente o conteúdo. E aqui reside um dos diagnósticos mais importantes — e mais incômodos — para a esquerda contemporânea.

“A chamada virada conservadora entre os jovens não pode ser compreendida apenas como uma mudança ideológica espontânea. Ela está diretamente ligada à forma como a comunicação política passou a ser feita.”

— O Autor

A ultradireita compreendeu, antes de muitos, a lógica da linguagem pós-moderna: fragmentada, emocional, simbólica e altamente conectada com o sentimento de pertencimento. Não se trata apenas de ideias — trata-se de narrativa. Com uma comunicação agressiva, direta e, muitas vezes, simplificadora, esses grupos passaram a ocupar os espaços digitais com eficiência. Trabalham com medo, identidade, indignação e pertencimento. Falam a língua da internet. Criam heróis e inimigos com facilidade. Transformam questões complexas em slogans poderosos.

Enquanto isso, a esquerda — historicamente mais ligada à elaboração teórica e à mediação intelectual — demorou a compreender essa transformação. Chegou às redes sociais tardiamente e, em muitos casos, ainda fala uma linguagem que não dialoga com a velocidade e a estética do mundo digital. Continua, muitas vezes, tentando explicar enquanto o outro lado já está mobilizando.

O resultado é visível. A juventude não abandonou a política. Ela apenas mudou de sala. Saiu das bibliotecas e foi para os grupos de mensagem. Trocou os tratados densos por vídeos curtos. Substituiu o debate prolongado pela reação imediata.

E isso não é, necessariamente, bom ou ruim por si só — mas é profundamente transformador.

VII

O Desafio da Tradução

O jovem que na década de 1960 se reunia numa sala de paróquia para estudar Gramsci havia sido encontrado onde estava: nas suas angústias, nas suas perguntas existenciais, na sua sede de sentido. A JUC soube fazer isso com extraordinária competência: levou a política para dentro do universo de significação que o jovem católico já habitava.

O desafio que se coloca agora não é muito diferente — apenas o universo mudou. O grande desafio que se coloca hoje não é reconquistar o interesse da juventude — porque ele nunca foi perdido. O desafio é compreender como ela pensa, como se comunica e, sobretudo, como constrói sentido no mundo contemporâneo.

A esquerda que formou gerações na paciência do livro e na profundidade do debate precisa aprender a linguagem da imagem rápida sem perder a substância do argumento longo. Precisa ser capaz de dizer em trinta segundos o que levava trinta páginas — sem trair a complexidade que essas trinta páginas carregavam. Não é tarefa simples. Mas é a tarefa histórica deste momento.

Porque, no fim, a política continua sendo disputada onde sempre foi: na mente e no coração das pessoas. A diferença é que, hoje, essa disputa acontece na velocidade de um clique.

E quem não souber clicar na hora certa perderá a batalha — mesmo tendo razão.

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P

Padre Carlos

Teólogo, escritor e colunista de opinião. Editor do blog Política e Resenha. Atua em Vitória da Conquista, Bahia.

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