Política e Resenha

O Sacramentário do Sofrimento: Uma Liturgia em “Meu Bem Querer”

 

Por Padre Carlos

 

Tudo começa no silêncio que antecede o som, naquele espaço íntimo onde a alma se despe da armadura do cotidiano. Hoje, o ar estava denso de uma quietude propícia quando as primeiras notas de Meu Bem Querer, de Djavan, romperam o véu. Não foi apenas música; foi um convite à imersão. A voz rouca, carregada de uma melancolia doce, não pedia ouvidos, mas vísceras. Ao ouvir “É segredo, é sagrado / Está sacramentado”, senti o chão da minha certeza tremer e dar lugar a um abismo luminoso. De repente, a canção deixou de ser entretenimento para se tornar liturgia.

Há na arte uma alquimia misteriosa: quando lemos um poema ou escutamos uma melodia, transcendemos a intenção literal do autor para tocar no universal que ele apenas intuiu. As metáforas tornam-se pontes suspensas sobre o nada, e nós, os viajantes, cruzamo-las sem saber exatamente para onde vamos, guiados apenas pela emoção que nos empurra. Foi assim que, ao ecoar o refrão, minha mente fez uma travessia abrupta das cordas do violão para os corredores frios e iluminados da Sacramentologia.

O que significa dizer que algo está “sacramentado”? Na teologia, o sacramento é o visível que contém o invisível; é a matéria que transborda espírito. Quando Djavan canta que o amor é “um quê de pecado”, ele toca na nervura central do mistério cristão: a ideia de que o divino só se revela plenamente na fratura, na queda, na vulnerabilidade humana. O amor romântico, tal como o conhecemos, não nasceu na perfeição edênica, mas foi forjado no cadinho do sofrimento. Ele é, por definição, um sacrifício. E todo sacrifício exige um altar e uma vítima.

Ao deixar a música ressoar em meu peito, a história desdobrou-se diante de mim como um pergaminho antigo, manchado de sangue e tinta. Percebi que o mito do amor romântico foi construído sobre ossadas. Quantas almas foram necessárias para que hoje pudéssemos idealizar a entrega total?

Penso em Inês de Castro, a galega, cuja beleza era tão ofensiva à razão de Estado que exigiu sua morte para que o amor do rei Pedro I se eternizasse. Ela não morreu apenas por uma intriga política; ela morreu para que o amor pudesse vencer a morte, tornando-se lenda. Seu corpo decapitado foi coroado postumamente, transformando o martírio em sacramento. O sofrimento dela foi a consagração definitiva de que amar é, inevitavelmente, perder-se.

E então, a memória salta através dos séculos, buscando outras faces nesse mesmo espelho trágico. Penso em Isolda — figura do ciclo arturiano, amante de Tristão, cujo amor nasceu sob o signo do destino e da transgressão, onde o sofrimento não era apenas físico, mas ontológico, uma luta entre dever e paixão, onde o amor surgia como ato de resistência sagrada. Ou quem sabe, numa confusão lírica da memória coletiva, penso em “Idaura” ou “Julita”, nomes que flutuam como ecos de tantas outras mulheres anônimas que se perderam na criação deste mito. Seja Julieta, a jovem de Verona — a Julieta de Romeu — que bebeu o veneno antes que o sol nascesse, seja a outra Julieta, a de Tristão, ou qualquer outra “Julita” esquecida pelos livros de história mas gravada no DNA da nossa sensibilidade: todas elas foram oferendas.

Da Idade Média à Modernidade, a narrativa do amor romântico exigiu o “jurado pra morrer”. Os poetas e filósofos que teceram essa tapeçaria entenderam que o amor puro não habita na segurança, mas no precipício. Para que o amor fosse elevado à categoria de religião laica, foi preciso que houvesse mártires. O sofrimento tornou-se a prova de autenticidade do sentimento. Se não dói, se não custa a vida, não é verdadeiro. É essa a lógica perversa e sublime que nos lega a história: a felicidade plena é suspeita; a dor compartilhada é sagrada.

Voltando àquela sala, com a música ainda a desvanecer no ar, compreendo agora a profundidade do verso de Djavan. “É segredo” porque o mistério do amor escapa à razão cartesiana; “é sagrado” porque toca no divino; “está sacramentado” porque foi selado com o sangue desses amantes históricos e mitológicos. E aquele “quê de pecado”? Talvez seja a audácia humana de tentar possuir o infinito, de querer fazer do outro um absoluto, desafiando a ordem natural das coisas.

Hoje, ao trabalhar essas emoções através da metáfora musical, percebo que cada vez que amamos perigosamente, estamos reencenando, consciente ou inconscientemente, a paixão de Inês, o desespero de Julieta, a resignação de Isolda. Somos herdeiros de um sofrimento que foi transmutado em beleza. O amor romântico é, em última análise, uma teologia do corpo ferido, onde a cruz do sofrimento individual se torna a chave para abrir as portas do transcendente.

A canção terminou, mas o silêncio que se seguiu não era vazio. Era pleno. Era o silêncio de quem acabou de assistir a uma missa secular, onde o pão e o vinho foram substituídos por versos e melodias, mas onde o sacrifício — esse ato supremo de doar a própria vida para que o amor exista — permaneceu intacto, eterno e terrivelmente belo.