Política e Resenha

ARTIGO – O Brasil dos Bilionários da Dívida e dos Miseráveis da Lei

 

 

Padre Carlos

 

Há algo de profundamente errado — e quase cômico, se não fosse trágico — quando um cidadão comum atrasa um boleto de R$ 300 e já recebe ameaça de negativação, bloqueio, cobrança insistente e até humilhação institucionalizada. Mas, curiosamente, quando se trata de bilhões… ah, aí o Brasil vira um país compreensivo, paciente e, por que não dizer, cúmplice.

Sim, cúmplice.

Ao me deparar com a história da deputada Sarah Poncio, confesso que não pensei imediatamente nela. Pensei no Estado. Pensei na engrenagem. Pensei na velha pergunta que nunca cala: como é possível dever R$ 1,7 bilhão à União e continuar vivendo como se fosse apenas mais um detalhe contábil?

Não, isso não é um erro. Isso é um sistema.

Porque ninguém — absolutamente ninguém — acumula uma dívida dessa magnitude sozinho. Não sem portas abertas, não sem olhos fechados, não sem mãos invisíveis empurrando o processo para debaixo do tapete da burocracia. Ou será que querem nos convencer de que tudo isso é fruto apenas de “incompetência administrativa”? Ora, sejamos minimamente inteligentes.

Estamos falando de cifras que fariam corar até grandes escândalos nacionais. Uma dívida que cresce enquanto a personagem central ostenta nas redes sociais uma vida que mistura fé, luxo e influência digital. A equação é quase poética: devo bilhões, posto milhões de seguidores e coleciono silêncio institucional.

E aqui entra o elemento mais saboroso — no sentido mais ácido da palavra: o silêncio.

Silêncio da própria deputada. Silêncio dos órgãos que deveriam agir com rigor. Silêncio de uma estrutura que parece funcionar com eficiência apenas contra os pequenos. Porque o cidadão comum não tem o privilégio de ser “devedor contumaz”. Ele é, no máximo, um inadimplente punido. Já os grandes… esses ganham classificação técnica, estudo acadêmico e, às vezes, até mandato.

Aliás, que expressão elegante, não? “Devedor contumaz”. Traduzindo para o português do povo: alguém que deve, continua devendo e, pelo visto, seguirá devendo — com alguma sofisticação jurídica para justificar o injustificável.

E não para por aí. Quando a dívida se espalha pela família e se conecta a um grupo empresarial com dezenas de empresas, o enredo deixa de ser individual e passa a ser estrutural. É um modelo. Um método. Um manual não escrito de como transformar tributos em ficção e responsabilidade em retórica.

Mas o ponto mais inquietante não é nem o valor. É a normalização.

Vivemos num país onde o absurdo não choca mais — ele apenas vira manchete passageira. Onde bilhões de reais de dívida pública são tratados com a mesma naturalidade de uma postagem patrocinada. Onde a indignação dura menos que um story.

E enquanto isso, o Estado segue firme… cobrando do pequeno empreendedor, do trabalhador, do cidadão que não tem sobrenome influente nem acesso aos labirintos do poder.

A pergunta que fica, e que deveria ecoar como um trovão moral, é simples: quem fiscaliza os fiscalizadores?

Porque, no fim das contas, não estamos diante apenas de uma dívida. Estamos diante de um retrato. Um retrato de um país onde a lei parece ter CPF seletivo, onde a justiça tem escala social e onde a moral pública, ao que tudo indica, também aceita parcelamento.

E com juros baixos. Ou nenhum.