(Padre Carlos)
Há momentos na política em que o barulho dá lugar ao bom senso. E, convenhamos, isso não é tão comum quanto deveria. Mas, desta vez, parece que a sensatez resolveu bater à porta — e, surpreendentemente, foi atendida.
A decisão do governador Jerônimo Rodrigues de manter Geraldo Júnior como vice na chapa de 2026 não é apenas um gesto administrativo. É, antes de tudo, um recado político claro: coerência ainda tem valor — mesmo em tempos de volatilidade e acordos frágeis.
Durante semanas, o que se viu foi o velho roteiro da política brasileira: especulações, vazamentos estratégicos, nomes lançados ao vento como balões de ensaio — de Ivana Bastos a Elmar Nascimento — como se a vice-governadoria fosse um prêmio de consolação ou moeda de troca em um balcão improvisado.
Mas não foi.
E é justamente aí que reside o ponto central dessa decisão: a ruptura com a lógica do “cacique decide, os outros obedecem”. Por muito tempo, a política baiana — e brasileira — foi refém dessa cultura. A norma era a vontade de poucos. A regra era o improviso travestido de estratégia.
Desta vez, não.
Ao reafirmar Geraldo Júnior, Jerônimo Rodrigues sinaliza algo que vai além da chapa eleitoral: estabilidade, lealdade e respeito a um projeto que já está em curso. Não se trata apenas de manter nomes, mas de preservar uma linha política, um compromisso assumido com a população.
E mais: desmonta-se, ainda que momentaneamente, a prática corrosiva de oferecer cargos a “mais de dez pessoas”, como se governar fosse montar um quebra-cabeça de interesses.
A política não pode ser um leilão.
A decisão também fortalece o discurso de alinhamento com Luiz Inácio Lula da Silva, reforçando uma narrativa de unidade e continuidade. Em tempos de polarização intensa, isso não é detalhe — é estratégia de sobrevivência.
Mas há algo ainda mais simbólico nisso tudo: o resgate da palavra dada. Em um ambiente onde promessas costumam ter prazo de validade curto, manter um compromisso firmado é quase um ato revolucionário.
Sim, revolucionário — e, ironicamente, conservador no melhor sentido da palavra: conservar aquilo que funciona.
Claro, não sejamos ingênuos. A política continua sendo o território dos interesses, das pressões e das negociações. Mas episódios como este mostram que ainda há espaço para decisões que não sejam pautadas apenas pelo cálculo frio do poder.
A escolha de manter Geraldo Júnior não resolve todos os problemas da Bahia, nem elimina as críticas ao governo. Mas estabelece um marco: a política pode, sim, ser previsível — e isso, acredite, é uma virtude.
No fim das contas, o que se viu foi simples — e exatamente por isso tão raro: a coerência venceu o improviso.
E quando a coerência vence, a democracia respira um pouco melhor.





