Análise Editorial · Padre Carlos
De juiz a Macunaíma:
a metamorfose do herói sem
caráter
Quando até o Estadão se cansa de Moro
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Vitória da Conquista · 2025
Há coisas que cheiram mal antes mesmo de apodrecer. E quando o Estadão — aquele mesmo que outrora erguia Sergio Moro ao Olimpo dos “grandes juízes” — resolve chamá-lo de “herói sem nenhum caráter”, é sinal de que o perfume da Lava Jato virou odor de peixe esquecido na geladeira.
“O capital moral, antes tratado como ouro em pó, agora é visto como moeda falsa, corroída pelo pragmatismo eleitoral e pelas alianças que fariam corar até o mais cínico dos políticos.”
— Padre Carlos
O editorial não economiza: fala em “decomposição” da imagem pública, como se o ex-magistrado tivesse virado fruta esquecida na fruteira da Faria Lima. O capital moral, antes tratado como ouro em pó, agora é visto como moeda falsa, corroída pelo pragmatismo eleitoral e pelas alianças que fariam corar até o mais cínico dos políticos.
O ex-juiz que prometeu limpar o Brasil — e acabou sujo pelo próprio espelho
A Folha, por sua vez, não se surpreende tanto: lembra que o discurso anticorrupção de Moro sempre teve um pezinho na política. Ou seja, a ambiguidade não nasceu agora; apenas floresceu em pleno palco eleitoral. O juiz que se dizia imparcial virou cabo eleitoral de si mesmo, e a toga que lhe dava aura de pureza foi trocada por palanque e microfone.
E aí entra a ironia: se até o Estadão, guardião da moralidade liberal, resolve descer o porrete, é porque algo está acontecendo nos corredores da Faria Lima. O cheiro não é só de incoerência ética, mas de rearranjo de interesses. Quando o mercado começa a torcer o nariz, é sinal de que o herói anticorrupção já não rende dividendos.
Ao fundo, a bandeira — símbolo que ele nunca deixou de instrumentalizar
No fim, o que sobra é a caricatura: Moro, o juiz que virou político, agora é tratado como personagem de tragicomédia. O mesmo jornal que o chamava de “grande juiz” agora o descreve como um Macunaíma de terno e gravata. E nós, espectadores, assistimos ao espetáculo com uma mistura de deboche e incredulidade, porque nada é mais brasileiro do que transformar heróis em piada — e piadas em heróis.
Nada é mais brasileiro do que transformar heróis em piada — e piadas em heróis.
Colunista
Padre Carlos
Teólogo, colunista e editor do Política & Resenha — Vitória da Conquista, Bahia
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