
Padre Carlos
Há momentos na política em que o espanto não nasce da surpresa, mas da repetição. A recente movimentação de Danilo Kiribamba, ao deixar o União Brasil e se filiar ao Avante, não é apenas uma troca de legenda — é mais um capítulo de uma narrativa que expõe, sem disfarces, a crise de representatividade que atravessa a política brasileira.
Quando a notícia surgiu, muitos reagiram com incredulidade. Afinal, não se trata de um movimento isolado, mas de uma trajetória marcada por guinadas sucessivas. Kiribamba, que já esteve nas fileiras do PCdoB, migrou para a direita sob o abrigo político do União Brasil — acolhido, inclusive, em um momento delicado por Dona Irma e pelo grupo da prefeita Sheila Lemos. Agora, retorna ao campo de influência do governo estadual, orbitando novamente a base do PT.
A pergunta que ecoa nas ruas, nas redes sociais e nos bastidores do poder é inevitável: o que motiva tais mudanças? Convicção ideológica ou cálculo político?
A política, em sua essência, é feita de alianças. Mas quando essas alianças se tornam voláteis demais, o eleitor passa a enxergar não estratégia, mas oportunismo. E aqui reside o ponto mais sensível dessa movimentação: a percepção do eleitorado. Em um cenário já marcado pela desconfiança, cada mudança brusca reforça a ideia de que mandatos e candidaturas estão menos comprometidos com projetos coletivos e mais alinhados a projetos pessoais.
A filiação ao Avante, sob a liderança de Ronaldo Carletto, abre margem para interpretações. Não se trata apenas de uma escolha partidária, mas de um reposicionamento dentro de um tabuleiro maior, onde forças estaduais e regionais se articulam visando 2026. O discurso oficial fala em “avanço em direção ao futuro”. Mas que futuro é esse? E para quem ele se constrói?
O rompimento com a gestão de Sheila Lemos também não é um detalhe menor. Ele sinaliza não apenas uma divergência política, mas uma ruptura simbólica com um grupo que lhe ofereceu espaço, visibilidade e estrutura. Na lógica da fidelidade partidária, esse movimento carrega peso — e custo.
Vivemos um tempo em que a política parece cada vez mais guiada pelo pragmatismo imediato. Ideologias, que outrora serviam como bússolas, hoje muitas vezes são tratadas como acessórios descartáveis. Trocam-se conforme a conveniência do momento, como quem muda de roupa diante de novas circunstâncias.
Mas o eleitor não é indiferente a isso. Pode até silenciar no primeiro momento, mas acumula percepções. E, quando chamado às urnas, transforma essas percepções em resposta.
Kiribamba aposta, talvez, na memória curta do eleitor ou na força de novas alianças. Pode ser uma estratégia calculada. Pode até funcionar. Mas também pode reforçar um sentimento crescente: o de que a política precisa reencontrar seu eixo moral.
No fim, a questão que permanece não é sobre partidos, mas sobre coerência. Em um ambiente onde tudo parece negociável, o que ainda é inegociável?
E você, eleitor conquistense, ao olhar para essa movimentação, vê estratégia… ou vê apenas mais um movimento de sobrevivência política?




