Política e Resenha

Feminicídio em Maetinga expõe falhas estruturais na proteção às mulheres no Brasil

A manhã desta segunda-feira, em Maetinga, não começou apenas com mais um registro policial. Começou com o silêncio pesado de uma ausência definitiva — a de Sabrina, cujo nome agora se soma a uma estatística que cresce de forma persistente no Brasil. Não se trata de um caso isolado, tampouco de uma exceção trágica: é parte de um padrão que atravessa a sociedade brasileira e revela fissuras profundas nas estruturas de proteção, justiça e consciência coletiva.

O feminicídio, enquanto expressão extrema da violência de gênero, não surge no vazio. Ele é o ponto final de uma cadeia de negligências, omissões e, muitas vezes, naturalizações perigosas. A política pública, embora existente no papel, ainda falha na capilaridade e na eficácia. A sociedade, por sua vez, oscila entre a indignação momentânea e o esquecimento conveniente. E o poder — em suas diversas esferas — frequentemente reage mais do que previne.

Há uma dimensão histórica que precisa ser encarada sem simplificações. O Brasil carrega uma herança cultural marcada por desigualdades estruturais, onde a violência contra a mulher foi, durante décadas, invisibilizada ou tratada como questão privada. Mesmo com avanços legislativos importantes, como a tipificação do feminicídio e o fortalecimento de instrumentos jurídicos, a prática cotidiana ainda revela uma distância inquietante entre a norma e a realidade.

A crise, portanto, não é apenas de segurança pública. É uma crise de valores, de educação e de responsabilidade institucional. Quando uma mulher é assassinada por razões de gênero, não falha apenas o sistema de justiça que não conseguiu protegê-la. Falha também a rede social que não acolheu, a cultura que não transformou, e o Estado que não conseguiu antecipar o risco.

Nesse contexto, a democracia se vê desafiada em sua essência. Não há democracia plena onde metade da população vive sob ameaça constante. A justiça, por sua vez, perde densidade quando se limita à investigação posterior, em vez de atuar de forma preventiva e articulada. A memória desses casos precisa deixar de ser episódica para se tornar estruturante — não como instrumento de dor, mas como ferramenta de transformação.

O caso de Maetinga, investigado pelas autoridades competentes, precisa ser compreendido para além de suas circunstâncias específicas. Ele dialoga com uma realidade mais ampla, onde a violência de gênero se repete com variações locais, mas com raízes comuns. Ignorar isso é perpetuar um ciclo que já demonstrou ser resistente à indiferença.

O Brasil, enquanto sociedade, precisa decidir se continuará reagindo a esses episódios como tragédias isoladas ou se os reconhecerá como sintomas de um problema sistêmico. Essa escolha não é retórica — é política, social e moral. E dela depende a capacidade de construir um país onde a palavra “justiça” não seja apenas uma promessa, mas uma experiência concreta.

Maria Clara