Política e Resenha

Entre Deus e o Poder: a imagem que expôs o ego de Donald Trump

 

 

Há algo de profundamente revelador — e perigosamente cômico — quando um presidente decide brincar de Deus.

Não foi uma metáfora. Não foi uma interpretação. Foi imagem, luz divina, túnica branca, gesto de cura e, ao fundo, a iconografia completa de um evangelho remixado com patriotismo: águias, bandeiras e reverência. Tudo cuidadosamente montado para transformar Donald Trump em algo entre salvador e espetáculo.

E então veio o silêncio… seguido do constrangimento… e, finalmente, a exclusão da postagem.

Mas o estrago já estava feito.

Porque o problema nunca foi a imagem.

O problema é o que ela revela.

Vivemos uma era em que líderes políticos não querem apenas governar — querem ser adorados. E não basta mais o poder institucional: é preciso o poder simbólico, quase religioso, quase divino. A política deixou de ser disputa de ideias para se tornar disputa de fé.

Trump, nesse episódio, não errou sozinho. Ele apenas levou ao extremo algo que já vinha sendo cultivado: o culto à personalidade, a construção de um líder infalível, a transformação da política em religião civil.

O curioso — ou talvez trágico — é que a indignação veio justamente de setores religiosos que, por anos, alimentaram essa aproximação perigosa entre fé e poder. Quando o ídolo finalmente resolve subir ao altar, o escândalo não é o gesto… é o exagero.

A imagem apagada não apaga a lógica.

E a explicação dada — de que seria apenas um “médico fazendo pessoas melhorarem” — soa menos como defesa e mais como sintoma. Porque revela algo inquietante: a incapacidade de perceber o limite entre liderança e delírio simbólico.

Enquanto isso, o mundo observa.

Líderes religiosos protestam. Autoridades internacionais reagem. E até o Papa Leão XIV, com sua serenidade estratégica, evita o confronto direto, mas reafirma o essencial: o Evangelho não é ferramenta de poder.

E talvez seja exatamente isso que esteja em jogo.

Não é sobre uma imagem.

É sobre a banalização do sagrado.

É sobre o uso da fé como ferramenta política.

É sobre a transformação do líder em mito — e do povo em plateia.

No fundo, a pergunta não é por que Trump fez isso.

A pergunta é: quantos ainda precisam acreditar nisso para que continue funcionando?

(Padre Carlos)