Política e Resenha

O Punk Rock Vai Tomar Conta da Cidade

 

 

 

Sábado, 18 de abril, 14h. Praça Guadalajara, em frente à Escola Normal. O ar vai cheirar a cerveja quente, cigarro de palha e suor. E o som vai ser aquele: distorcido, sujo, sem perdão. O Festival Conquista Punk Rock chega à sua segunda edição e, desta vez, não está pedindo licença. Está invadindo. E a cidade, que tanto precisa de um chute no traseiro, vai sentir cada batida.

Não é festival de nicho. Não é evento “para quem gosta”. É punk rock puro, sem filtro, feito por quem nasceu e respira o asfalto de Vitória da Conquista. Seis bandas, todas locais, nenhuma importada. Stratozero abre a porrada. Rural 64 entra com o peso de quem veio do interior pra mostrar que roça também racha. Simple Jeans traz a sonzeira que gruda na cabeça. Escravos da Merenda chega com aquela irreverência que só quem já comeu merenda fria na vida entende. Signista, a veterana, completa 18 anos no palco — maioridade conquistada na marra, com baixo e distorção. E o encerramento fica por conta do Preá, que vai tocar Raimundos como se o mundo fosse acabar ali mesmo, na frente da Normal.

Anderson Silva, da Som e Cena, resumiu tudo com a simplicidade de quem entende o jogo: “Sem dúvida é uma oportunidade pra gente conhecer mais ainda o trabalho autoral das bandas de Conquista e região, se divertir e curtir punk rock”. Ele não disse “consumir cultura”. Disse curtir. Porque punk não se consome. Punk se vive.

E é exatamente isso que está acontecendo aqui. Enquanto o mainstream segue vendendo pose e algoritmo, o punk de Conquista segue fazendo o que sempre fez: resistir. Não é nostalgia barata. É contracultura viva, suada, de gente que trabalha de dia e ensaia de noite. É o grito de quem não aceita que a cidade vire apenas shopping e selfie. É celebração também — porque punk, quando é de verdade, é festa braba. É roda, é mosh, é grito no microfone e cerveja dividida no gargalo.

O festival não está acontecendo num teatro com ar-condicionado nem num clube fechado para poucos. Está na praça. De graça. Para quem passar. Para o estudante que vem da Normal, para o tio que ainda ouve Raimundos no carro, para o garoto de 15 anos que acabou de descobrir que o mundo é uma merda e que o punk pode ser a resposta. É democracia sonora na veia.

Punk rock nunca morreu. Ele só finge que dorme pra, de repente, acordar e morder. Em Conquista, ele está acordado, barulhento e com fome. E no sábado ele vai tomar conta da cidade — não com violência, mas com verdade. Com o som que incomoda quem precisa ser incomodado e que abraça quem precisa ser abraçado.

Se você tem vergonha de pular, de gritar, de sujar a camisa, fica em casa. Mas se ainda sobrou um resto de rebeldia no peito, vai pra Praça Guadalajara. Leva a cara, leva a raiva, leva a alegria. O punk está chegando.

E a cidade, queira ou não, vai ter que dançar.