Política e Resenha

Quando o Herói de Ficção Resolve Atacar o Juiz em Vez de o Bandido de Verdade

 

 

 

Padre Carlos

 

Ah, Brasil, meu Brasil de alma sofrida e CPI de alma leve. Lá estava ela, a Comissão Parlamentar de Inquérito, com todo o pompa de uma grande investigação nacional, com direito a holofotes, discursos inflamados e aquele ar de “agora vai” que todo brasileiro reconhece desde a época do Collor. E qual foi o grande feito histórico dessa CPI? Investigar o crime organizado? Desmontar as teias do PCC e do Comando Vermelho que se infiltram até na Faria Lima? Não. O grande feito foi tentar se transmutar em Super-Homem da Lava-Jato e voar direto para o pescoço do Supremo Tribunal Federal.

Porque, convenhamos, que oportunidade ímpar o país perdeu. Num ano em que a Polícia Federal chega de chinelo na Avenida Faria Lima com a Operação Carbono Oculto e mostra o Primeiro Comando da Capital lavando dinheiro como se fosse cliente VIP de fundo de investimento, fintech e banco de porta de cofre. Num ano em que o Comando Vermelho aparece com relações carinhosas dentro da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro — aquela mesma ALERJ que parece ter mais deputados na lista do jogo do bicho do que na de presença. E, para coroar, o assassinato do delator Daniel Gritzbach à luz do dia, com fuzil e apoio logístico de policiais militares no aeroporto de Guarulhos. Cena de filme de ação? Não, cena de relatório da CPI que ninguém leu porque estava ocupado demais escolhendo o próximo ministro para indiciar.

Mas não. Em vez de mergulhar nessas infraestruturas podres, a CPI resolveu que o verdadeiro perigo público era o contrato de resort do ministro Dias Toffoli. Sem contrapartida comprovada, sem nada que cheire a crime, mas com aquele cheirinho de “vamos dar um susto no cara”. Aí o internauta indignado pergunta: “Padre Carlos está passando pano?”. Não, meu caro. Eu só estou lembrando que, se achar crime de verdade, vira manchete. O contrato da mulher do ministro Alexandre de Moraes? Banco Master? Se tiver coisa, investiguem. O problema é que, de repente, a régua da moralidade ficou tão seletiva que parece feita sob medida para o Instagram. O filho do ministro Nunes Marques? Silêncio sepulcral. O filho do ministro Luiz Fux? Nem um pio. É como se a CPI tivesse inventado um novo jogo: “Indiciamento ou Passa”. E o passe era só para quem não estivesse na lista negra do momento.

O ápice da comédia foi o pedido de indiciamento do ministro Gilmar Mendes. Motivo? Ele concedeu habeas corpus para pessoas convocadas pela CPI. Habeas corpus, gente. Aquela coisinha de 1830 que está na Constituição desde que o Brasil era império e que, pasmem, é jurisprudência cediça no Supremo. O ministro André Mendonça fez exatamente a mesma coisa e… nada. Nem um “oi, tudo bem?”. A régua, meus amigos, não era de medir, era de escolher o lado da balança que dá mais like.

Chegamos, então, ao retrato perfeito: uma CPI eleitoreira que ignorou o PCC rindo à toa enquanto deputados da ALERJ e instituições de segurança pública viravam extensão do crime organizado. Poderíamos ter tido ali o senador Alessandro Vieira e o senador Fabiano Contarato, dois delegados de verdade, organizando o trabalho com seriedade. Mas não. Preferiram transformar a coisa num tiro no próprio pé. Porque, vejam só, você não pode criminalizar o juízo por exercer o ofício. Existe direito ao silêncio — vale no Brasil, vale em CPI, vale até em novela das nove. Pedir que se investigue um juiz por decidir é como pedir que o árbitro seja expulso por apitar falta. Afeta o livre exercício da judicatura, afeta a separação de poderes, afeta, no fim das contas, a cara de pau institucional.

E o melhor (ou o pior, dependendo do lado que você torce) é que o ministro Gilmar Mendes já deu o recado ontem, com aquele sorrisinho de quem adora briga: “Existem várias formas de se reagir a um ataque. Alguns silenciam, outros se acovardam; eu, vocês sabem, adoro ser provocado”. Tradução: recuar ele não vai. E tem razão. Porque quando uma CPI resolve que o problema do Brasil não é o crime organizado incrustado nas entranhas financeiras do país, mas sim o Supremo que ousa exercer o controle de constitucionalidade, o tiro sai pela culatra. E o barulho é tão alto que até o PCC deve estar aplaudindo de pé.

No final, a lição é cruelmente simples: quem tenta transformar instituição em inimigo acaba virando piada. E o Brasil, que já tem tantos problemas reais, merecia algo melhor do que uma CPI que trocou o bandido pelo toga. Mas tudo bem. Pelo menos serviu para uma coisa: mostrar, com clareza cristalina, quem realmente defende as instituições e quem só quer usar o microfone para fazer campanha.

O resto é só deboche. E, convenhamos, deboche é o que sobra quando a seriedade some de cena.