
Há momentos em que uma cidade inteira precisa parar e fazer uma pergunta incômoda: até quando aceitaremos ser tratados como periferia de nós mesmos?
A recente declaração da prefeita Sheila Lemos escancara um problema que vai muito além da aviação regional. Quando ela denuncia a substituição de uma aeronave por outra com capacidade para apenas nove passageiros no trecho entre Vitória da Conquista e Salvador, não está apenas falando de logística — está falando de isolamento, de desrespeito e de abandono institucional.
Não se trata de um detalhe técnico. Trata-se de um símbolo.
Reduzir drasticamente a oferta de assentos em uma rota estratégica é, na prática, dizer que a segunda maior cidade do interior baiano não merece conexão digna com a capital. É enfraquecer o comércio, dificultar o acesso à saúde de alta complexidade, comprometer agendas políticas, travar investimentos e, sobretudo, limitar o direito de ir e vir de milhares de cidadãos.
A indignação expressa por Sheila Lemos encontra eco na fala do presidente da Câmara, Ivan Cordeiro, que aponta para a necessidade de uma audiência pública e, mais importante, levanta uma tese que merece atenção: a responsabilidade não seria apenas da companhia aérea Azul Linhas Aéreas Brasileiras, mas do próprio Estado.
E aqui está o cerne da questão.
Empresas aéreas operam com lógica de mercado. Cortam custos, ajustam rotas, substituem aeronaves. Não são instituições de caridade — são agentes econômicos. No entanto, cabe ao poder público criar mecanismos que garantam equilíbrio regional. Subsídios, incentivos fiscais, políticas de aviação regional, negociação institucional: instrumentos existem. O que falta, ao que parece, é vontade política ou prioridade.
Quando um vereador classifica a nova aeronave como um “teco-teco”, ele não está apenas sendo retórico; está traduzindo o sentimento coletivo de rebaixamento. Uma cidade com a importância econômica, educacional e estratégica de Vitória da Conquista não pode ser tratada como um ponto secundário no mapa aéreo.
A pergunta lançada pela prefeita ecoa com força: onde estão os deputados? Onde está o governo do estado?
O silêncio — ou a lentidão — diante de um problema tão concreto revela algo ainda mais preocupante: a naturalização da perda. Aos poucos, vai-se aceitando menos voos, menos investimentos, menos atenção. E quando se percebe, o que era exceção vira regra.
Mas há um ponto de inflexão possível.
A mobilização anunciada em Brasília e a proposta de audiência pública são caminhos legítimos, mas precisam ir além do gesto simbólico. É necessário transformar indignação em articulação política efetiva. Pressão institucional coordenada, envolvimento da sociedade civil, participação do setor produtivo — só assim a pauta ganha peso real.
Porque, no fim das contas, não estamos discutindo aviões.
Estamos discutindo dignidade regional.
Uma cidade que cresce, produz, educa e sustenta uma vasta região não pode ser empurrada para o isolamento logístico. Aceitar isso seria admitir que existem baianos de primeira e segunda categoria — e isso, sim, é absolutamente inaceitável.




