Política e Resenha

GOLPE NA ALERJ: Corrupção, cargos fantasmas e R$ 1,3 bilhão que poderiam pagar o metrô

CRISE POLÍTICA

GOLPE NA ALERJ:

 

Em manobra sem adversários e já contestada no STF, Douglas Ruas toma posse como presidente e engrena maquinaria para retomar o governo do Rio

Com 25 deputados da oposição ausentes para obstruir o quórum e duas ações correndo no Supremo, o grupo de Cláudio Castro articula a volta ao Palácio Guanabara — enquanto o Rio ferve com denúncias de corrupção bilionária, cargos fantasmas e braços do crime organizado dentro da Assembleia.

Por  | Padre Carlos  Publicado em 2025  |  Política / Rio de Janeiro

Douglas Ruas toma posse na ALERJ
Douglas Ruas (PL) assume presidência da Alerj em sessão marcada pelo vazio da oposição e pelo ruído do STF.

Era de manhã cedo desta sexta-feira quando o deputado Douglas Ruas, do PL, plantou sua bandeira no plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Sem adversários. Sem disputa. Com 44 votos favoráveis, uma abstenção e um salão meio vazio — porque 25 deputados da oposição simplesmente se recusaram a comparecer. O espetáculo político que se seguiu revelou, com crueza cirúrgica, a profundidade da crise institucional que devora o estado mais disfuncional do país.

“A oposição utilizou a ferramenta de obstrução da pauta para não dar quórum a uma eleição com a qual não concordamos. Não vamos legitimar esse processo.”
— Deputada Elica Taquimoto

A ausência não foi acidente — foi estratégia. PT, PSB, PSD, PCdoB, MDB e PDT optaram pela cadeira vazia como forma de protesto e como instrumento jurídico. A razão: o Supremo Tribunal Federal ainda não decidiu se a próxima escolha para o governo do estado será feita pelo povo — em eleições diretas — ou pelos próprios deputados, em eleição indireta. E aí o nó aperta.

A linha sucessória e o jogo do trono

O presidente da Alerj ocupa o terceiro lugar na linha de sucessão do governo fluminense. Com Cláudio Castro renunciando às vésperas de ser cassado — e ficando inelegível por 8 anos —, com o vice Thiago Pampolha já confortavelmente instalado no Tribunal de Contas, e com o sucessor seguinte, Rodrigo Bacelar, também cassado, o caminho para o Palácio Guanabara passou a ser pavimentado pela cadeira que Ruas acabou de ocupar.

Enquanto isso, quem está no comando interino é o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto. E, segundo a deputada Renata Souza, Couto está fazendo um trabalho que o grupo de Castro jamais queria ver: um “pente fino” na máquina pública, com demissões em massa e extinção de subsecretarias que serviam de cabide eleitoral.

“Ricardo Couto tem agido para desmontar uma máquina que havia sido colocada ali pelo grupo anterior.”
— Deputada Elica Taquimoto

Corrupção, cargos fantasmas e R$ 1,3 bilhão que poderiam pagar o metrô

O deputado Flávio Serafini não tem papas na língua. Para ele, Ruas pertence ao mesmo grupo político que sustentou por anos um esquema de corrupção em larga escala: cargos fantasmas, contratos fraudulentos e um saque sistemático ao estado — agravado após a privatização da CEDAE. Serafini acusa o grupo de querer manter seus esquemas intactos e impedir que as auditorias em curso concluam seu trabalho.

Já a ativista Malu Cortés joga luz sobre um personagem ainda mais sombrio da trama: Rodrigo Bacelar, cassado, seria braço do crime organizado e teria vazado informações sigilosas para traficantes. A mesma ativista revela um número que congela o sangue: o grupo de Castro teria usado R$ 1,3 bilhão para compra de votos — quantia suficiente para financiar quase um ano de tarifa zero nos ônibus do Rio de Janeiro.

“A bancada do PT classifica a eleição como um jogo de cartas marcadas — o voto aberto num estado dominado por milícias e máfias serve para coagir deputados, não para representar o povo.”
— Bancada do PT na Alerj

O STF e o placar que pode mudar tudo

No Supremo, o placar está 4 a 1 favorável às eleições indiretas — o que daria poder aos deputados, e não ao povo, para escolher o próximo governador. Mas o julgamento foi suspenso por pedido de vista do ministro Flávio Dino. Uma liminar mantém Ricardo Couto no governo até que a Corte bata o martelo.

Ruas, já de olho nas eleições de outubro, articula uma manobra para assumir o governo interinamente e busca conversar com Couto para avaliar se o magistrado toparia ceder o posto. A ativista Clarice Chacon resume o sentimento de quem luta por outro desfecho:

“A luta por Diretas Já continua. O povo do Rio de Janeiro quer e merece decidir seu próprio futuro.”
— Ativista Clarice Chacon

O que aconteceu esta manhã na Alerj não foi uma simples votação. Foi um movimento de xadrez num tabuleiro onde as peças têm nomes como corrupção, crime organizado, bilhões desviados e o futuro de milhões de fluminenses. O Rio de Janeiro, acostumado a crises que seriam ficção em qualquer outro lugar, aguarda agora a palavra final do Supremo — enquanto um homem eleito sem adversários já planeja a próxima jogada.

Enquanto o STF delibera e o povo espera, o grupo que dilapidou o estado já elegeu seu homem na Assembleia. A questão que fica: o Rio vai deixar que a história se repita — ou desta vez será diferente?

Tags: Alerj, Douglas Ruas, PL, STF, Rio de Janeiro, Cláudio Castro, Eleições Diretas, Crise Institucional, Corrupção