
Padre Carlos
Eu peço a Deus todos os dias — e não há vergonha nisso — que não permita que minhas filhas e minha esposa sofram. É uma oração simples, quase sussurrada, mas carregada de um peso que só quem ama compreende. Porque amar, no fundo, é temer pelo outro. É saber que o mundo, às vezes, é duro demais com aquilo que deveria proteger.
E há algo que sempre me desarma: o choro de uma mulher.
Quando uma mulher chora, eu paro.
Não por curiosidade, mas por respeito. Não por fragilidade dela, mas pela grandeza do que está sendo revelado ali. Porque naquele instante não há apenas lágrimas — há história, há silêncio acumulado, há dores que foram empurradas para dentro até não caberem mais.
Eu observo com atenção.
E, no silêncio do meu pensamento, tenho uma convicção que me atravessa: Deus conta cada lágrima.
Uma a uma.
Não como quem registra, mas como quem se importa.
Talvez o maior erro da nossa sociedade seja não compreender que o grau de amor de um povo pode ser medido pela forma como ele cuida de suas mulheres. Não pelo discurso, não pelas homenagens ocasionais, não pelas palavras bonitas em datas específicas — mas pelo cuidado cotidiano, invisível, constante.
Cuidado é amor em ação.
E é justamente aí que falhamos.
Porque ainda vivemos em um mundo onde muitas mulheres são feridas — não apenas no corpo, mas na dignidade, no respeito, na escuta. São interrompidas, silenciadas, julgadas, abandonadas. E depois perguntamos por que choram.
Mas o choro não nasce do nada.
Ele é o transbordamento de tudo aquilo que não foi cuidado.
Há uma imagem antiga, quase esquecida pela pressa moderna, que ainda nos ensina mais do que muitos discursos contemporâneos: a mulher foi criada da costela do homem.
E isso não é detalhe simbólico — é uma declaração de princípios.
Não foi tirada dos pés, para ser pisoteada.
Nem da cabeça, para dominar.
Mas do lado.
Lugar de igualdade.
Um pouco abaixo do braço, para ser protegida — não como quem é fraca, mas como quem é preciosa. E do lado do coração, para ser amada — não como objeto, mas como essência da própria existência humana.
Essa imagem, por si só, desmonta séculos de distorções.
O amor verdadeiro não oprime. Não diminui. Não silencia.
O amor verdadeiro cuida.
Cuida no gesto pequeno, na palavra dita com respeito, na escuta paciente, na presença firme. Cuida quando ninguém está olhando. Cuida quando não há aplauso. Cuida porque reconhece valor — e não porque espera recompensa.
E talvez seja essa a pergunta que deveríamos ter coragem de fazer, individual e coletivamente: o quanto estamos, de fato, cuidando?
Porque onde não há cuidado, não há amor — há conveniência, há costume, há discurso vazio.
Mas não há amor.
Eu continuo rezando.
Mas minha oração já não é apenas um pedido para que Deus proteja as mulheres que eu amo. É também um pedido para que nós, homens e sociedade, aprendamos a ser resposta dessa oração.
Porque talvez Deus já esteja fazendo a sua parte.
Talvez Ele esteja, neste exato momento, contando lágrimas.
E esperando que nós comecemos, finalmente, a evitá-las.




