Política e Resenha

A Raiva Combinada e o Amadorismo na Política Baiana

 

 

 

“Em política, até a raiva é combinada. Quem não leva em conta isso é amador.” A máxima de Ulysses Guimarães, um dos maiores articuladores políticos da história brasileira, ressoa com uma clareza cristalina ao observarmos os recentes movimentos no cenário político baiano. A sabedoria contida nessas poucas palavras serve como um farol para desvendar as nuances e, por vezes, as incongruências das estratégias adotadas por figuras proeminentes.

O ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, em sua tentativa de desarticular a chapa majoritária e afastar o vice-governador Geraldo Júnior, demonstrou um comportamento que, à luz da citação de Guimarães, pode ser categorizado como amador. A pressão exercida, aparentemente sem a devida coordenação com seus pares e sem a orquestração necessária que a alta política exige, resultou em um desgaste desnecessário e, talvez, em um tiro no próprio pé. A política, como um jogo de xadrez complexo, demanda movimentos calculados e, acima de tudo, combinados. A ausência dessa sincronia expôs uma fragilidade na articulação, revelando uma ação isolada que careceu da força e da legitimidade que um consenso político confere.

Em contraste gritante, a reação do grupo político em relação ao prefeito de Jequié, após sua decisão de permanecer na chapa de ACM Neto, ilustra perfeitamente o que Ulysses Guimarães definia como a “raiva combinada”. Neste caso, a reprovação não se manifestou de forma individual ou descoordenada. Pelo contrário, observou-se um coro uníssono, uma orquestração impecável de vozes que, em uníssono, criticaram a postura do prefeito. Essa ação conjunta, essa “raiva combinada” e estrategicamente direcionada, demonstra um nível de profissionalismo e alinhamento que faltou na movimentação anterior. A mensagem foi clara, forte e inquestionável, justamente porque emanou de um corpo político coeso e alinhado em seu propósito.

A diferença entre os dois episódios é abissal e serve como um estudo de caso sobre a importância da articulação e da coordenação na política. Enquanto a tentativa de Rui Costa de desqualificar Geraldo Júnior pareceu um ato solitário e, por isso, ineficaz e até contraproducente, a investida contra o prefeito de Jequié foi um exemplo de como a política opera quando a “raiva” – ou qualquer outra emoção ou estratégia – é devidamente combinada e orquestrada. O amadorismo, nesse contexto, não se refere à falta de capacidade individual, mas à ausência de uma compreensão profunda das engrenagens que movem o poder e as alianças.

Em suma, a política baiana, com seus recentes capítulos, oferece uma lição valiosa. Aqueles que aspiram a ser grandes articuladores devem internalizar a sabedoria de Ulysses Guimarães: na política, nada é por acaso, e até as emoções mais viscerais são, muitas vezes, frutos de uma combinação estratégica. Ignorar essa premissa é, sem dúvida, o maior sinal de amadorismo.