Política e Resenha

ARTIGO – Um Ano de Silêncio, Um Século de Memória: O Legado Vivo de Isnara Pereira

 

Padre Carlos

 

Há exatamente um ano, Vitória da Conquista perdeu mais do que uma professora. Perdeu uma guardiã da memória, uma intérprete do tempo, uma mulher que compreendia que o passado não é apenas aquilo que passou — mas aquilo que sustenta quem somos.

A morte de Isnara Pereira não foi apenas uma perda para a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Foi um abalo na própria estrutura da memória cultural do Sertão. Porque há intelectuais que produzem conhecimento — e há aqueles que constroem pontes entre gerações. Isnara era dessas raridades.

Em tempos em que a história é frequentemente distorcida ou negligenciada, sua obra permanecia firme como um farol. Sua dedicação à historiografia brasileira, especialmente no estudo da escravidão e das dinâmicas sociais do Sertão baiano e mineiro, não era apenas acadêmica — era um ato de resistência. Resistência contra o esquecimento. Resistência contra a superficialidade.

Hoje, ao completar um ano de sua partida, a pergunta que ecoa não é apenas “quem foi Isnara?”, mas “o que estamos fazendo com o legado que ela deixou?”.

Neste 22 de abril de 2026, a cidade se reúne não apenas para lembrar, mas para reafirmar vínculos que o tempo não dissolve. A celebração da missa de um ano, marcada para as 19h30, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Seminário, carrega mais do que um rito religioso — é um gesto coletivo de memória, um reencontro silencioso entre aqueles que ficaram e aquela que permanece viva na história que ajudou a construir.

Ali, entre orações, saudades e lembranças, ecoa a certeza expressa nas palavras que acompanham sua homenagem: ela segue presente nos pensamentos e, sobretudo, nos corações, iluminando almas. Não se trata apenas de luto, mas de permanência. A fé, neste contexto, não apaga a ausência — mas a transforma em presença simbólica, em legado que resiste ao tempo.

A universidade pública, tantas vezes atacada e incompreendida, encontrou nela uma de suas expressões mais nobres. Isnara acreditava no conhecimento como instrumento de transformação social. Formou gerações de historiadores, não apenas ensinando técnicas, mas despertando consciência. Porque ensinar história, como ela bem sabia, é ensinar a pensar o mundo.

Seu trabalho com a memória histórica de Vitória da Conquista não foi um simples exercício acadêmico. Foi um compromisso com a identidade de um povo. Cada pesquisa, cada orientação, cada projeto carregava a marca de quem entendia que a história do Sertão não é periférica — é central para compreender o Brasil.

O Memorial Mozart Tanajura, idealizado sob sua condução, simboliza isso: a materialização de uma visão onde o passado não é um arquivo morto, mas uma força viva que ilumina o presente.

Mas talvez o maior legado de Isnara não esteja apenas nos livros, nos artigos ou nas instituições que ajudou a fortalecer. Está nas pessoas. Nos alunos que hoje seguem pesquisando. Nos colegas que continuam defendendo a universidade pública. Na consciência coletiva que ela ajudou a moldar.

A ausência física de uma grande historiadora é inevitável. Mas o esquecimento, esse sim, é uma escolha. E é justamente contra ele que a obra de Isnara Pereira continua lutando — silenciosa, firme, necessária.

Um ano depois, não falamos apenas de saudade. Falamos de responsabilidade.

Porque preservar a memória é, no fundo, preservar a nós mesmos.