Política e Resenha

Seja Honesto com o Que Você Sente


Padre Carlos · Política e Resenha

Seja Honesto com o Que Você Sente

Sobre a saudade, o tempo que não passa
e a coragem de sentir de verdade

Há dias em que o tempo não é uma régua, mas uma ferida aberta. Dias em que vinte e nove anos cabem num instante, e esse instante pesa como três décadas inteiras. Dias em que a saudade, esse sentimento tão brasileiro e tão humano, recusa qualquer racionalização e simplesmente toma conta — da garganta, do peito, da tarde inteira. Se você já viveu um desses dias, este texto é para você. Se ainda não viveu, guarde-o com cuidado: ele há de chegar.

Existe uma pergunta que a vida faz para nós, silenciosamente, nos momentos mais inesperados: Você está sentindo falta de alguém? Falta de quem foi embora por escolha própria. Falta de quem partiu sem querer. Falta de quem a morte levou, com aquela brutalidade mansa e definitiva que é o sumiço permanente de uma presença amada. Essa pergunta não espera resposta racional. Ela apenas bate — às vezes como um sopro, às vezes como uma pancada surda no meio do esterno.

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I. O Pai que Não Foi Perfeito — e que Não Precisava Ser

Permita-me dividir algo que é meu, mas que pode ser seu também. Ontem lembrei muito do meu pai. Faz quase trinta anos que ele partiu. E ele foi, de verdade, um amigo — com todas as contradições que essa palavra carrega quando falamos de um pai. Não, ele não era perfeito. Longe disso. Tinha seus problemas com o álcool, aquele jeito bruto de ver a vida, os ângulos ásperos que a existência vai forjando em alguns homens antes que a ternura consiga amaciar as bordas. Mas era o jeito dele. E quando a gente ama de verdade, aprende que amor não é admiração irrestrita — é aceitação com os olhos abertos.

“Quando a gente ama de verdade, aprende que amor não é admiração irrestrita — é aceitação com os olhos abertos.”

Carrego como um privilégio, e uso essa palavra com toda a consciência do seu peso, o fato de ter conseguido ressignificar tudo isso em vida com ele. Tudo mesmo. As mágoas antigas, os silêncios mal resolvidos, os gestos que faltaram e os que sobraram na hora errada. Há uma graça rara em poder dizer ao pai — antes que a morte torne o diálogo impossível — que você o entende, que você o perdoa, que você o ama justamente porque ele era imperfeito, como você, como nós todos somos. Essa graça não me tornou superior a ninguém. Apenas me fez mais leve para carregar a saudade que veio depois.

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II. O Tempo que Não Passa — e o Sentimento que Não Envelhece

Vinte e nove anos. Quase três décadas. Quando esse número me atravessou ontem, ficou difícil até respirar direito. Porque trinta anos é uma geração inteira. É o tempo em que países mudam de regime, em que crianças nascem, crescem, formam-se e têm filhos. É o tempo em que nós mesmos nos tornamos outros, várias vezes. E mesmo assim — mesmo com tudo isso pesando na balança — o sentimento estava ali como se tivesse acontecido há quinze dias.

Isso me ensinou algo que nenhum relógio consegue desmentir: o tempo é relativo. Não apenas no sentido em que Einstein o descreveu, com a elegância fria das equações — mas no sentido vivo e visceral de que a intensidade do sentimento dobra ou estira o tempo como se ele fosse massa na mão de um oleiro. Uma manhã de alegria plena pode durar o que parece uma eternidade bem-vinda. Uma tarde de saudade pesada pode comprimir trinta anos num único suspiro. O coração tem seu próprio calendário, e ele raramente coincide com o da parede.

“O coração tem seu próprio calendário, e ele raramente coincide com o da parede.”

Quantas pessoas não chegaram sequer a viver o que vivemos nesses anos? Quantas histórias foram interrompidas antes de completar o primeiro capítulo? Quando a saudade nos drena desta forma — quando nos deixa exaustos como depois de uma batalha que ninguém viu — talvez seja porque estamos, sem perceber, sentindo também por aqueles que não puderam sentir. A saudade dos que ficam é, em parte, uma homenagem silenciosa à vida que existiu.

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III. O Peso — e o Dom — de se Deixar Sentir

Ontem, ao final do dia, eu me sentia esgotado. Drenado por dentro. Era o peso da saudade que, naquele dia, resolvi não afastar — deixei que ela chegasse com toda a sua extensão. E então percebi: o que nos mobiliza na impotência é das coisas mais difíceis de elaborar. A morte, a ausência, a partida definitiva — elas nos colocam diante de algo contra o qual todo o nosso instinto de controle bate e volta: a irreversibilidade.

A pessoa amada continua dentro de nós — isso é verdade e ao mesmo tempo é desafio. A presença física se foi. Mas a presença subjetiva permanece, habita os sonhos, assoma nos gestos que repetimos sem querer, vive nos cheiros e nas músicas e nas formas de dobrar uma toalha que aprendemos com ela. E é nessa tensão — entre o ela está aqui e o ela não está mais — que uma criança dentro da gente levanta a voz e diz com toda a força da sua impotência: Eu não quero assim. Eu quero do outro jeito.

“A presença física se foi. Mas a presença subjetiva permanece — nos gestos, nos sonhos, nas formas de dobrar uma toalha que aprendemos com ela.”

Essa criança não é imaturidade. É humanidade. E há um momento em que o adulto que construímos com tanto esforço — o profissional, o responsável, o que sustenta os outros — precisa dar licença a essa criança de chorar, de falar, de querer o que não pode mais ser. Ontem eu fiz isso. Eu me permiti. E o cansaço que veio depois era o cansaço de quem trabalhou de verdade — não com planilhas ou reuniões, mas com o material mais exigente de todos: a própria dor.

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IV. A Honestidade de Sentir — e o Perdão que Liberta

Há uma cultura — cada vez mais difundida, cada vez mais violenta na sua sutileza — que nos ensina a gerenciar as emoções. A transformá-las em dados administráveis. A encontrar depressa a “ressignificação”, o “aprendizado”, o “lado positivo”. E há um lugar para essas ferramentas, não venho negá-las. Mas há também um momento em que elas se tornam uma fuga elegante, uma forma sofisticada de não sentir o que precisa ser sentido.

A saudade não pede para ser resolvida. Ela pede para ser habitada, ainda que por um momento. Não há minimização que faça jus a ela. Não há explicação que a cubra por inteiro. A saudade é grande porque o amor foi grande — e seria uma espécie de traição ao amor que vivemos tratá-la como um problema a ser solucionado no menor tempo possível.

E aqui, com a liberdade de quem escreve de um lugar de fé e de busca, quero ir um passo além: há um trabalho que só você pode fazer. O trabalho do perdão. Não aquele perdão apressado, que é mais absolvição dos outros para que possamos dormir em paz — mas o perdão que desce fundo, que mexe em camadas, que demanda honestidade sobre o que nos foi feito e sobre o que fizemos. Esse perdão é possível com quem está. É possível, também, com quem não está mais — porque o perdão não precisa de presença física para acontecer. Ele acontece dentro de nós, e quando acontece de verdade, liberta.

“A saudade não pede para ser resolvida. Ela pede para ser habitada, ainda que por um momento.”

Por isso, te convido — com toda a delicadeza e toda a franqueza que posso reunir nesta linha — a ser honesto com o que você sente. Não o honesto de enunciado, não o honesto que serve de caption de foto. O honesto de verdade: aquele que para, que respira fundo, que reconhece a saudade pelo nome, que não a empurra para debaixo do tapete da agenda cheia e da positividade performática. Sente. Deixa sentir. Você tem todo o direito.

Meu pai foi imperfeito e foi amigo. Foi bruto e foi presença. Passou — e continua. Vinte e nove anos me separam da última vez que ouvi sua voz, e ontem eu o senti tão perto que quase doeu de alegria. Talvez seja isso a saudade, no fim das contas: uma forma que o amor encontrou de sobreviver à ausência. Uma prova, das mais concretas que conheço, de que ninguém que foi verdadeiramente amado some de verdade.

Se há alguém em você que chora hoje, deixa chorar. Se há uma criança sua que quer do outro jeito, acolhe ela com a generosidade que você teria com uma criança de carne e osso. E se há alguém que você ainda pode procurar para ressignificar, para dizer o que não disse, para ouvir o que não ouviu — não espere que o calendário mude de página mais uma vez.

Um abraço — em você e na sua saudade.

O Autor

Padre Carlos

Teólogo, presbítero e articulista. Escreve sobre fé, política e cultura
em Política e Resenha, de Vitória da Conquista, Bahia.