Opinião · Política e Resenha
Os Companheiros Esquecidos da Travessia

Sobre Edival Passos e a crise ética de um projeto que aprendeu a esquecer aqueles que o fundaram
Por Padre Carlos | Política e Resenha | Vitória da Conquista, Bahia
Existe uma dor que não grita. Ela não vai às redes sociais, não escreve manifestos, não pede audiência com ninguém. É uma dor que envelhece quieta nos corpos de homens e mulheres que um dia acreditaram que a história os lembraria — e que descobriram, no silêncio de um telefone que para de tocar, que a história tem memória seletiva.
Quero falar com você, leitor, sobre esses companheiros. Sobre os que carregaram o piano. Sobre os que fizeram o movimento andando, muitas vezes no escuro, antes que houvesse palco, holofote ou cargo para repartir. Quero falar de Edival Passos — mas também, através dele, de uma geração inteira que a política progressista brasileira tem dificuldade de encarar no espelho.
O homem que chegou antes
Nascido em Boa Nova, no coração do sertão baiano, em janeiro de 1952, Edival Passos Souza não escolheu o caminho fácil em nenhum momento de sua vida. Quando a ditadura militar sufocava qualquer forma de dissidência com o punho de ferro da repressão, ele tinha dezoito anos — a idade em que a maioria dos jovens teme o futuro. Edival, ao contrário, foi recrutado para a militância por Theodomiro Romeiro dos Santos, o primeiro preso político brasileiro condenado à morte pelo regime, símbolo vivo de tudo que estava em jogo naqueles anos de chumbo.
Eram tempos em que a convicção custava caro. O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário — o PCBR, organização da qual Edival fazia parte — entendia que a transformação social não viria de mãos estendidas ao poder, mas de resistência organizada, mesmo quando resistir significava viver na ilegalidade, trocar de nome, desconfiar das sombras. Não era romantismo. Era o preço real de acreditar.
Quando a abertura política começou a ensaiar seus primeiros gestos — hesitantes, vigiados, negociados à luz apagada — e o Partido dos Trabalhadores nasceu em 1980, Edival Passos foi um daqueles que enxergaram na nova legenda não um fim, mas uma possibilidade. Uma frente. Um guarda-chuva sob o qual a esquerda plural poderia se reorganizar sem abrir mão da essência. Ele entrou. Ajudou a construir. E foi além.

O batismo de fogo de 1982
Em 1982, o Brasil voltou a votar para governador pela primeira vez desde 1962. Vinte anos de interdição democrática finalmente chegavam ao fim — ao menos nas urnas. Na Bahia, o cenário era dominado por forças tradicionais: de um lado, João Durval Carneiro, do PDS, herdeiro das estruturas do regime; do outro, Roberto Santos, do PMDB, a oposição “permitida”. Entre os dois gigantes, surgiu algo que muitos consideraram uma provocação, uma ingenuidade ou um gesto inútil: o Partido dos Trabalhadores lançou candidato ao governo do estado.
Esse candidato era Edival Passos. O primeiro na história do PT baiano a disputar o executivo estadual.
“A campanha serviu para prefigurar o partido na consciência das massas” — era assim que os próprios militantes do PT descreviam a experiência de 1982, mesmo reconhecendo a derrota acachapante nas urnas.
Vinte e cinco mil votos. Menos de um por cento. Os números são frios, e a frieza deles pode enganar quem não conhece o que eles escondem: a coragem de erguer uma bandeira quando não havia vento favorável; a disciplina de percorrer municípios sem dinheiro, sem televisão, sem máquina; a construção silenciosa de uma identidade política que, anos depois, chegaria ao poder federal. Edival Passos foi parte do alicerce. Não da fachada — do alicerce.

A contradição que não se nomeia
Ele continuou. Tornou-se vereador em Salvador, presidente do Diretório Regional do PT na Bahia, líder da bancada petista na Assembleia Legislativa. Ocupou a superintendência do SEBRAE. Foi auditor fiscal, presidente de sindicato de servidores. Uma vida inteira tecida entre a militância e o serviço público.
E, no entanto — é aqui que a dor silenciosa começa —, quantos dentro do próprio campo progressista baiano conhecem, hoje, o nome de Edival Passos? Quantos sabem que foi ele quem estreou o PT nas eleições majoritárias estaduais? Quantos se lembram de onde vieram antes de chegarem onde chegaram?
Existe uma contradição que corrói por dentro qualquer projeto político que se pretenda transformador: a de discursar permanentemente sobre memória, resistência e justiça social — e praticar, nos bastidores, o descarte sistemático de quem já não tem utilidade eleitoral, força de mobilização ou espaço nas engrenagens do poder. É a política das relações líquidas: o laço se forma na necessidade e se dissolve na conveniência. Os vínculos de compadrio substituem a solidariedade orgânica. O pragmatismo devorou a gratidão.
Não estou falando de um partido específico, nem de uma facção, nem de um mandatário. Estou falando de uma cultura política que se instalou como hábito — e que afeta, em maior ou menor grau, toda a esquerda brasileira. Uma cultura que celebra os mártires mortos com muito mais facilidade do que reconhece os sobreviventes vivos.
Imagino Edival Passos em 1982, percorrendo o interior da Bahia num veículo sem ar-condicionado, levando uma mensagem que a maioria das pessoas ainda não estava pronta para ouvir. O sol do Sudoeste baiano. A poeira da estrada. A certeza de que estava fazendo algo necessário, mesmo sem garantia de resultado. Aqueles militantes não pediam vitória. Pediam sentido. E encontravam esse sentido uns nos outros — na cumplicidade da trincheira.
A crise ética que não se debate em congresso
A esquerda brasileira produziu documentos belíssimos sobre direitos humanos. Aprovou legislações históricas. Construiu políticas públicas que mudaram a vida de milhões. Tudo isso é real e merece reconhecimento.
Mas nenhum congresso partidário pautou ainda a seguinte pergunta: o que fazemos com os nossos velhos militantes? Com os que adoeceram, os que perderam espaço, os que envelheceram sem pensão nem reconhecimento, os que simplesmente foram ficando para trás enquanto as siglas cresciam e os cargos se multiplicavam?
A resposta prática tem sido o silêncio. O esquecimento elegante. A ausência nas homenagens — ou a presença apenas póstuma, quando já não custa nada celebrar quem não pode mais cobrar nada.
Um movimento que se diz orientado pela solidariedade e pela justiça social precisa se perguntar: somos solidários apenas com as causas abstratas, ou também com as pessoas concretas que nos ajudaram a chegar até aqui? A resposta a essa pergunta diz mais sobre a integridade de um projeto político do que qualquer programa eleitoral.

O que devemos a esses nomes
Não escrevo este artigo para fazer de Edival Passos um mártir, nem para transformar sua história em arma de disputa interna. Escrevo porque acredito que nomear é um ato político. Que lembrar, quando tudo conspira para o esquecimento, é uma forma de resistência. E que uma esquerda que não cuida dos seus não merece governar o futuro dos outros.
Edival Passos é um nome. Mas atrás dele existem dezenas, centenas de nomes que percorreram o mesmo caminho — da clandestinidade à legalidade, da utopia à decepção, da fundação ao esquecimento. Homens e mulheres que acreditaram quando era difícil acreditar. Que se arriscaram quando era perigoso se arriscar. Que construíram o chão sobre o qual outros plantaram a bandeira e receberam os aplausos.
O mínimo que lhes devemos é a memória. Não a memória decorativa dos discursos de 1º de maio — a memória viva, que os reconhece pelo nome, que conta a história como ela realmente foi, que não reescreve o passado apagando os que incomodam o presente.
Há uma passagem das Escrituras que, neste contexto, adquire uma densidade política que seus autores talvez não tenham previsto: “Não façais injustiça ao estrangeiro, ao órfão, à viúva — e não derrameis sangue inocente neste lugar.” Substitua “estrangeiro” por “militante esquecido” — e você terá um programa político mais honesto do que qualquer declaração de princípios que eu já li. Porque a justiça que não começa em casa não chega a lugar algum.
Padre Carlos
Teólogo, colunista e editor do Política e Resenha
Vitória da Conquista, Bahia




