Política e Resenha

O Território Selvagem de Clarice.

“Meu livro é para todo mundo. Mas eu acho que ele só será aproveitado por pessoas de alma formada.”

— Clarice Lispector

É preciso ter coragem para abrir um livro de Clarice Lispector. Digo isso não como quem alerta para um perigo físico, mas como quem reconhece a iminência de um naufrágio doméstico. Ler Clarice é ver o chão da sala abrir-se em um despenhadeiro de significados, onde o cotidiano — um ovo, uma flor, uma barata — deixa de ser objeto para tornar-se revelação.

A inteligência de Clarice é, de fato, assustadora. Mas não se trata da inteligência fria dos acadêmicos ou da sagacidade geométrica dos lógicos. É uma inteligência de entranhas. Ela não pensa com a cabeça; ela pensa com o sistema nervoso. Quando nos debruçamos sobre A Paixão Segundo G.H., não estamos lendo um romance no sentido tradicional da palavra. Nada “acontece” no plano exterior, e, no entanto, ocorre ali uma revolução cósmica dentro de um quarto de empregada.

O Sagrado no Profano

A cena da barata degustada — imagem que afugenta os leitores de pele fina — não é um exercício de choque gratuito. É uma transubstanciação. Clarice nos conduz pela mão até o centro do nada para nos mostrar que, no âmago da existência, somos todos feitos da mesma matéria indiferenciada e vibrante. Ali, G.H. perde sua identidade social, seu nome e suas roupas para encontrar o que Clarice chamava de “o neutro vivo”.

“O que é uma alma formada? Não é aquela que acumulou diplomas ou erudição.
É a alma que já aceitou a própria fragilidade.”

A frase que a muitos soa como elitismo é, na verdade, um atestado de misericórdia. A alma formada, na acepção clariceana, é aquela que não teme o silêncio, que já atravessou seus próprios desertos e que não precisa mais de enredos barulhentos para se sentir viva.

O Fluxo como Espelho

A escrita de Clarice não descreve a vida; ela mimetiza o ato de viver. Seu fluxo de consciência é um convite ao despojamento. Para ler A Hora da Estrela ou G.H., é necessário abandonar as defesas. É preciso estar disposto a ser “assustado” — e esse susto é o despertar da consciência que se percebe só diante do mistério.

Muitos buscam na literatura um refúgio, uma fuga da realidade. Clarice oferece o oposto: um encontro frontal. Ela nos devolve a nós mesmos, com todas as nossas arestas e vazios.

A Autoridade do Silêncio

Há uma coragem moral em Clarice que poucos escritores ousaram ter: a coragem de não ter respostas. Ela habita a pergunta. Ao dizer que seu livro é para quem “tem a alma formada”, ela está selecionando não os melhores, mas os prontos. Prontos para suportar a beleza que fere e a verdade que desorganiza.

No fim das contas, a obra de Clarice Lispector é um espelho de dupla face. De um lado, vemos a genialidade técnica de uma mulher que subverteu a língua portuguesa. Do outro, vemos o reflexo da nossa própria busca por sentido.

Se Clarice te assusta, celebre. O susto é o sinal de que sua alma está, finalmente, começando a ganhar forma. E, no silêncio que sucede a leitura de sua última frase, o que resta não é o medo, mas uma profunda e estranha paz — a paz de quem aceitou que a vida é, essencialmente, um mistério a ser vivido, e não um problema a ser resolvido.

Padre Carlos — Política e Resenha