Política Nacional
A patologia da suspeita: quando a esquerda adoece de si mesma

A derrota no Senado com a rejeição de Jorge Messias ao STF revelou mais do que uma fragilidade de articulação — expôs o avanço de uma neurose política que ameaça o campo progressista por dentro.
|
Política e Resenha
|
Vitória da Conquista, Bahia
Há momentos na história política em que o erro não está apenas na derrota, mas na forma como se reage a ela. O recente revés do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Senado, com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, escancarou mais do que fragilidades na articulação institucional — revelou um sintoma preocupante: o avanço de uma espécie de neurose política no campo progressista.
Não se trata aqui de negar a gravidade da derrota. Um placar de 42 votos contrários contra 34 favoráveis não é trivial. Ele evidencia fissuras reais na base, expõe limites da coordenação política e aponta para a necessidade de revisão estratégica. Mas transformar esse episódio em uma caça às bruxas é, além de improdutivo, profundamente perigoso.
“Quando toda discordância vira traição, o campo político deixa de ser espaço de construção coletiva e passa a operar sob a lógica do medo e da vigilância.”
A reação de setores do governo e da esquerda — buscando identificar “traidores” a qualquer custo — flerta com uma lógica que historicamente sempre foi combatida pelo próprio campo progressista: a do tribunal da suspeição, da condenação sem prova, da narrativa acima dos fatos. Quando nomes como Jaques Wagner, figura de trajetória consolidada ao lado do projeto político do PT, ou Renan Calheiros, aliado em momentos decisivos, passam a ser colocados sob desconfiança pública, algo se rompe no tecido político.
Mais grave ainda é a tentativa de deslocar responsabilidades. Apontar o dedo para atores como Davi Alcolumbre ou Rodrigo Pacheco pode até fazer parte do jogo político, mas insinuar conspirações difusas envolvendo figuras como Alexandre de Moraes — que, em momentos críticos, teve papel relevante na defesa institucional da democracia — revela mais sobre a fragilidade interna do que sobre qualquer articulação externa.
A patologização da divergência
O problema central não é a divergência — ela é parte essencial da democracia. O problema é a patologização da divergência. Quando toda discordância vira traição, o campo político deixa de ser espaço de construção coletiva e passa a operar sob a lógica do medo e da vigilância.
Há aqui um risco estratégico evidente: ao invés de recompor pontes, o governo pode acabar aprofundando isolamentos. Ao invés de entender a complexidade do Senado — onde interesses regionais, partidários e individuais se entrelaçam — corre-se o risco de simplificar tudo em uma narrativa moralista de lealdade versus traição.
O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao adotar cautela e defender uma análise mais aprofundada antes de qualquer reação, parece compreender esse perigo. Sua postura contrasta com o ímpeto de setores que, movidos mais por frustração do que por estratégia, buscam respostas rápidas e culpados imediatos.
O teste de maturidade
A esquerda brasileira precisa, com urgência, evitar cair em uma armadilha que historicamente criticou: a da inquisição política. Não há projeto democrático sólido que sobreviva à lógica da purga interna permanente. A política exige leitura de contexto, capacidade de autocrítica e, sobretudo, maturidade para reconhecer erros próprios antes de atribuí-los exclusivamente aos outros.
A derrota no Senado não é apenas um revés legislativo — é um teste de maturidade política. Transformá-la em um surto coletivo de desconfiança pode custar caro. Afinal, nenhum campo político vence quando passa a lutar mais contra si mesmo do que contra seus desafios reais.
Lula
STF
Senado
PT
Democracia
Jorge Messias
Padre Carlos é teólogo, sacerdote e colunista de opinião. Escreve sobre política, teologia e cultura no blog
Política e Resenha, de Vitória da Conquista, Bahia.




