Opinião · Política & Resenha
Jornalismo ou Militância? O Debate Sobre os 74 Cargos em Vitória da Conquista

Teólogo, presbítero e colunista de opinião · Vitória da Conquista, BA
O jornalismo cumpre uma função indispensável na democracia. Fiscalizar o poder, questionar decisões públicas e provocar o debate são tarefas legítimas e necessárias. Contudo, existe uma linha tênue — e perigosa — entre a crítica jornalística e a construção de uma narrativa previamente condenatória. E é justamente nesse território nebuloso que algumas coberturas políticas acabam escorregando.
A recente matéria sobre a aprovação de 74 novos cargos comissionados na Prefeitura de Vitória da Conquista é um exemplo claro de como determinadas abordagens podem induzir o leitor a formar um juízo de valor antes mesmo de compreender a totalidade do assunto debatido.
Observe-se que, em nenhum momento, a matéria se aprofunda sobre a natureza técnica dos cargos criados, quais áreas da administração seriam fortalecidas, quais secretarias demandam ampliação de pessoal estratégico ou qual o impacto administrativo da medida dentro da modernização da máquina pública. Não há contextualização sobre crescimento urbano, aumento da demanda por serviços, necessidade de coordenação técnica ou reorganização administrativa. O foco é outro: produzir desgaste político.

A palavra “cabide de emprego” aparece como eixo emocional da narrativa — uma expressão historicamente carregada de reprovação moral e indignação popular.
Ao utilizá-la sem apresentar, de forma objetiva, os fundamentos administrativos do projeto, cria-se no imaginário coletivo a ideia de que toda criação de cargo comissionado é, automaticamente, um ato de favorecimento político ilegítimo.
E isso é extremamente delicado.
Toda administração pública — municipal, estadual ou federal — possui cargos de livre nomeação. Eles existem exatamente para garantir funcionamento político-administrativo, coordenação de equipes, confiança estratégica e execução de programas de governo. A discussão correta deveria ser: os cargos são necessários? Há justificativa administrativa? Existe responsabilidade fiscal? O município possui capacidade orçamentária? Essas seriam as perguntas centrais de um jornalismo verdadeiramente informativo.
Mas a matéria prefere outro caminho.
Quando cita vereadores da oposição que votaram favoravelmente ao projeto, o texto praticamente os coloca na condição de traidores do povo ou cúmplices de algo obscuro. A narrativa sugere que qualquer parlamentar que tenha aprovado a proposta estaria automaticamente agindo contra os interesses populares. Não há espaço para explicar eventuais razões técnicas, acordos administrativos, entendimento jurídico ou convicção política legítima.
Mais grave ainda é a insinuação sobre o suposto mal-estar de um vereador. Ao mencionar que “os pares estão ventilando” que o episódio seria uma estratégia para “pôr panos quentes”, a matéria abandona o terreno da informação verificável e entra no campo da especulação subjetiva. Não se apresenta prova. Não se apresenta declaração formal. Apenas se alimenta uma atmosfera de suspeição.

Esse modelo de cobertura produz um fenômeno cada vez mais comum: o jornalismo militante disfarçado de reportagem neutra.
Não se trata aqui de defender governo, oposição ou vereadores. Trata-se de defender um princípio essencial da comunicação democrática: o direito do leitor de receber informação contextualizada, equilibrada e intelectualmente honesta.
A imprensa tem todo o direito de criticar gastos públicos, questionar nomeações e investigar excessos. Mas quando a reportagem já nasce com sentença embutida, quando a escolha das palavras conduz emocionalmente o leitor para uma conclusão específica, o debate público perde qualidade.
O problema não é a crítica. O problema é a ausência de equilíbrio.
A sociedade precisa compreender que administração pública não funciona apenas com concursos e estruturas engessadas. Existem funções estratégicas de coordenação, articulação e confiança política que são inerentes ao funcionamento do Estado. Isso ocorre em Brasília, Salvador, São Paulo e em praticamente todos os municípios brasileiros.
Transformar automaticamente toda criação de cargo em escândalo político talvez renda manchetes, cliques e engajamento digital. Mas dificilmente ajuda o cidadão a compreender a complexidade da gestão pública.
Num tempo em que a informação disputa espaço com a emoção, o jornalismo precisa decidir se deseja formar cidadãos conscientes ou apenas torcidas indignadas.
Porque quando a narrativa vem antes da análise, a notícia deixa de iluminar os fatos e passa apenas a conduzir sentimentos.
Teólogo, presbítero, agente de pastoral prisional
Colunista de opinião · Política e Resenha · Vitória da Conquista, Bahia
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