Política e Resenha

Fios Soltos, Risco Real: Vitória da Conquista Pede Socorro

 

Há problemas urbanos que, de tão cotidianos, acabam naturalizados — até que alguém se machuca, um acidente acontece ou o caos deixa de ser apenas visual e se torna tragédia anunciada. A fiação irregular que hoje marca as ruas de Vitória da Conquista é exatamente esse tipo de problema: visível, persistente e perigosamente negligenciado.

Basta caminhar alguns quarteirões para encontrar cabos pendendo em altura inadequada, emaranhados improvisados ou fios abandonados que já não servem a nenhum propósito. Eles não apenas poluem a paisagem urbana — são armadilhas silenciosas. Motociclistas desviam por instinto, pedestres se abaixam por reflexo, trabalhadores se expõem a riscos desnecessários. A cidade se adapta ao erro, quando deveria corrigi-lo.

Não se trata de um detalhe técnico, mas de uma falha estrutural de gestão urbana e de responsabilidade compartilhada. Empresas concessionárias, responsáveis pela instalação e manutenção desses cabos, operam muitas vezes sob uma lógica de expansão contínua, sem o devido compromisso com a organização e a retirada do que se torna obsoleto. O resultado é um acúmulo desordenado que cresce à medida que a fiscalização se mostra insuficiente.

É nesse contexto que ganha relevância a iniciativa mencionada por Ivan Cordeiro. Ao propor um projeto de lei que obriga a retirada de cabos excedentes ou inutilizados, o parlamentar toca em um ponto essencial: a necessidade de responsabilização clara e de नियमas que não apenas existam no papel, mas sejam efetivamente cumpridas.

Projetos assim, no entanto, não podem ser apenas simbólicos. A eficácia dependerá da criação de mecanismos de fiscalização contínua, da aplicação de sanções reais em caso de descumprimento e, sobretudo, de transparência para que a população acompanhe os resultados. Sem isso, corre-se o risco de transformar uma boa proposta em mais um documento esquecido nos arquivos do poder público.

Há também uma dimensão mais profunda nessa discussão: o direito à cidade. Segurança, organização e dignidade urbana não são privilégios — são garantias básicas. Quando a infraestrutura falha, o recado implícito é de descaso. E o descaso, quando se acumula, corrói a confiança da população nas instituições.

Resolver a questão da fiação irregular não exige inovação mirabolante, mas sim vontade política, coordenação entre os entes envolvidos e compromisso com o interesse coletivo. É uma daquelas situações em que o básico bem feito já representa um avanço significativo.

A pergunta que fica não é se o problema pode ser resolvido, mas por que demorou tanto para ser tratado com a seriedade que exige. Em Vitória da Conquista, como em tantas outras cidades brasileiras, o desafio agora é transformar indignação em ação concreta — antes que o próximo fio solto cobre um preço alto demais.