Política e Resenha

A Língua que nos Fez Cinco de maio, e ainda somos feitos de palavras

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5 de Maio  ·  Dia da Língua Portuguesa

A Língua que nos Fez

Cinco de maio, e ainda somos feitos de palavras

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Padre Carlos

Teólogo  ·  Colunista

Há uma cena que não consigo mais apagar da memória. Tinha eu pouco mais de vinte anos, em Belo Horizonte, quando ouvi pela primeira vez, numa sala abafada que cheirava a mimeógrafo e esperança, um teólogo belga ler em voz alta, em português com sotaque estrangeiro, o verso de Olavo Bilac: “Em que da voz materna ouvi: meu filho!” Ele parou. Deixou o silêncio durar. E disse, com aquela seriedade mansa dos que creem no que dizem: “Quando uma língua carrega a voz da mãe, ela nunca é apenas gramática. É carne.”

Nunca mais me esqueci.

Hoje é cinco de maio. Dia da Língua Portuguesa. E eu quero falar com você — não sobre ortografia, não sobre reforma, não sobre os acordos que dividem lusófonos como se dividem territórios — quero falar sobre aquilo que a língua guarda dentro de si quando ninguém está olhando: a memória dos que amaram, sofreram e resistiram em português.

I.A língua não é do rei. É do povo que chora.

Fernando Pessoa disse que sua pátria era a língua portuguesa. Disse isso quem nasceu em Lisboa, viveu em Durban, escreveu em inglês e inventou heterônimos para não morrer sozinho. Pessoa sabia, com a clareza dos fragmentados, que o território mais íntimo de um ser humano não é o chão que pisa, mas o idioma em que sonha. Em que xinga. Em que reza. Em que chama alguém pelo nome no escuro.

Minha pátria é a língua portuguesa.

Fernando Pessoa

O português que falamos — aqui no Sudoeste baiano, nos sertões de Elomar, nas praias de Cabo Verde, nas aldeias de Timor-Leste — não desceu dos céus pronto e perfeito. Ele veio da boca de mouros e de romanos, de escravizados e de índios, de rezadeiras e de repentistas, de Camões exilado e de Castro Alves indignado. É uma língua que sangrou para existir. Que foi negada, deformada, colonizada dentro de si mesma — e ainda assim sobreviveu.

Sobreviveu porque o povo a encheu de vida.

Quando uma mãe do interior da Bahia diz ao filho doente “cê vai ficar bão, meu bem”, ela não está conjugando verbo nenhum que a academia ensine. Ela está fazendo o que a língua sempre fez de melhor: transformar o medo em carinho, a dor em presença.

II.Pedro e Inês, ou: o amor que a língua não deixou morrer.

Permita-me agora contar uma história. Ou melhor — deixar que ela nos conte.

Era o século XIV, e Portugal era uma corte de jogos sujos e alianças frias. Pedro, príncipe herdeiro, foi obrigado a casar com Constança de Castela — casamento de Estado, sem consulta ao coração. Entre as damas da noiva veio Inês de Castro, galega, de beleza que a crônica medieval não soube descrever sem tremer. Pedro a amou. Inês o correspondeu. E o escândalo rasgou a corte ao meio.

O velho rei Afonso IV mandou Inês para o exílio. Constança morreu. Pedro trouxe Inês de volta e passou a viver com ela abertamente, como se o amor pudesse ser mais forte do que a razão de Estado. Tiveram filhos. Tiveram dias. Tiveram, talvez, aquela espécie de felicidade que só existe quando se sabe que ela é proibida.

Os conselheiros do rei tramaram. Disseram que os Castro queriam o trono. Mentiram com a eloquência dos covardes. E Afonso, velho e manipulado, assinou a sentença.

Inês foi morta em Coimbra, em 1355, diante de seus filhos.

Um homem planejou sua própria morte para que seu primeiro olhar na eternidade fosse o rosto da amada.

O que Pedro fez depois pertence ao território onde a história e a lenda se abraçam e já não se soltam. Dizem que, tornado rei, mandou desenterrar o corpo de Inês. Mandou vesti-la com os trajes reais. Mandou coroá-la rainha. E exigiu que toda a corte — aquela mesma corte que a desprezara, que a condenara, que a matara — se ajoelhasse e beijasse a mão fria da morta.

Agora Inês é morta — a expressão que ficou. Mas ficou errada, ou incompleta. Porque Inês não está morta. Está em Alcobaça, num túmulo de pedra rendilhada que Pedro mandou esculpir. E defronte ao dela, outro túmulo — o dele. Posicionados de forma que, no dia da ressurreição, quando os mortos se levantarem, os dois se vejam antes de ver qualquer outra coisa.

Se isso não é poesia, eu não sei mais o que é.

E em que língua se contou tudo isso? Em português. Em português que Camões transformou em épica. Em português que chegou até nós — professores, padres, militantes, mães, avós — e nos entregou essa história como herança.

III.A língua como resistência, como altar, como casa.

Há oito países no mundo cuja língua materna é o português. Oito histórias diferentes, oito feridas coloniais, oito modos de sorrir e de enterrar os mortos. Angola que resistiu. Moçambique que floresceu. Guiné-Bissau que lutou. Timor-Leste que sobreviveu ao genocídio cantando. Cabo Verde que inventou a morna para transformar a saudade em música.

E o Brasil — que pegou a língua do colonizador e a transformou em algo que o colonizador não reconhece mais. Que encheu o português de batuque, de axé, de palavras indígenas, de sotaques que parecem rios diferentes correndo para o mesmo mar.

A língua é nossa mãe. E mãe não se escolhe — se recebe, se cuida, se defende quando alguém tenta humilhá-la.

Gilberto Gil — e Padre Carlos

Eu penso nisso quando vejo jovens envergonhados de seu sotaque nordestino. Quando vejo falares populares sendo ridicularizados por quem confunde norma culta com superioridade moral. Quando vejo a língua sendo usada não para iluminar, mas para excluir — para dizer ao outro que ele não pertence, que ele não sabe, que ele não é suficiente.

A língua portuguesa foi, em muitos momentos de nossa história, instrumento de dominação. Mas foi também — e é isso que celebro hoje — instrumento de libertação. Padre Vieira usou o púlpito para defender os índios. Zumbi resistiu. Castro Alves transformou o horror da escravidão em versos que ainda queimam. Paulo Freire ensinou que aprender a ler o mundo vem antes de aprender a ler a palavra.

A língua é o campo de batalha mais antigo que existe. E cada um de nós, quando escolhe com cuidado as palavras que usa, está tomando um lado.

IV.Uma confissão de quem escreve.

Quando decidi escrever — aqui, neste blog, para você que me lê — fui percebendo que escrever não é transmitir verdade. A verdade não se transmite. Ela se alcança, ou não, por conta própria. Como a fé. Como a morte. É uma viagem que só você pode fazer.

O que posso fazer é preparar o caminho. Escolher palavras que abram portas em vez de fechá-las. Escrever de forma que o leitor não se sinta julgado, mas convidado. Convidado a sentir, a discordar, a lembrar, a descobrir que já sabia de algo que ainda não sabia que sabia.

A língua portuguesa me deu isso. Me deu Bilac e Drummond. Me deu Elomar e Riachão. Me deu a homilia que comove e o poema que atravessa. Me deu o jeito de chamar alguém de meu filho sem ser pai biológico e ter a mesma autoridade de amor.

Hoje, cinco de maio, eu não vou só celebrar uma data. Vou agradecer a uma língua que me fez.

Que nos fez.
A todos nós — daqui de Vitória da Conquista ao arquipélago de Cabo Verde, da várzea do São Francisco às florestas de Timor — ela nos fez.

E enquanto existirmos para falar dela, ela existirá para nos guardar.

✦   Olavo Bilac   ✦

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Padre Carlos é teólogo, presbítero e colunista.

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