Política e Resenha · Análise Política
ACM Neto no Bico de Sinuca:
Se Correr o Bicho Pega,
Se Ficar o Bicho Come

Por Padre Carlos · Vitória da Conquista, Bahia · Maio de 2026
A
política é como uma mesa de sinuca em fim de campeonato. Há momentos em que qualquer tacada pode decidir a partida — ou destruir o jogador. ACM Neto parece ter chegado exatamente a esse ponto. Está no chamado “bico de sinuca” da política brasileira: se correr para o colo do bolsonarismo, arrisca perder setores moderados da Bahia; se permanecer distante, pode ver escapar a militância mais aguerrida da direita. Em outras palavras: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Não há para onde correr. Se ACM Neto se assumir como palanque de Flávio Bolsonaro, perde uma boa parcela de seu eleitorado moderado — e isso não é pouco. O ex-prefeito de Salvador construiu, ao longo de anos, a imagem de uma direita moderna, menos ideológica e mais administrativa: um político capaz de dialogar com empresários, conservadores, liberais e até setores moderados do lulismo baiano. Essa estratégia inteligente sustentou sua trajetória.
A Peculiaridade Eleitoral da Bahia
A Bahia possui uma peculiaridade eleitoral rara: há milhares de eleitores que votam em Lula para presidente e, ao mesmo tempo, simpatizam com lideranças conservadoras locais. Os números das últimas pesquisas revelam isso com clareza. Segundo a pesquisa Quaest, cerca de 25% dos eleitores de ACM Neto também votam em Lula. Existe, portanto, uma fatia expressiva do eleitorado baiano que não embarcou completamente na lógica da guerra ideológica nacional.
O Brasil continua polarizado, e o eleitor bolsonarista votaria em ACM Neto simplesmente por não aceitar o PT governar mais quatro anos — independentemente da escolha que ele faça. Já os 25% moderados não perdoariam ACM se ele subisse no palanque de Flávio Bolsonaro. Trata-se de um equilíbrio frágil, quase cirúrgico.
“A polarização deixou de ser apenas eleitoral. Tornou-se emocional, cultural e até religiosa. O político que tenta dialogar com diferentes setores precisa de uma coragem rara — e de uma habilidade ainda mais rara.”
A Matemática Fria das Pesquisas
O cálculo apresentado pelas pesquisas é frio e quase cirúrgico. Neto perde parte do eleitor moderado se abraçar Bolsonaro — e não ganha a “infantaria” bolsonarista, porque essa tropa já é dele: a militância digital, agressiva, que domina redes sociais, cria narrativas e mobiliza campanhas. Essa perda e esse ganho não se anulam numericamente. É uma conta que só fecha no negativo.
Mas política não é apenas matemática. Existe algo chamado identidade política. E talvez seja justamente aí que mora o verdadeiro drama de ACM Neto. Aproximar-se de Flávio Bolsonaro significa correr o risco de deixar de ser percebido como um líder baiano autônomo para transformar-se em mero representante regional de um projeto nacional radicalizado. Isso pode consolidar votos na extrema direita, mas também pode assustar eleitores urbanos, empresários moderados e setores pragmáticos da sociedade baiana.
O DNA Histórico do Carlismo
Antônio Carlos Magalhães sempre foi um mestre do pragmatismo. Sabia conversar com governos diferentes, sobreviveu a diversas mudanças políticas nacionais porque entendia que poder não se exerce apenas com ideologia, mas com capacidade de adaptação. O carlismo histórico nunca foi doutrinário: foi, antes de tudo, estratégico.
O cenário atual parece exigir um retorno às origens. Talvez seja justamente isso que esteja tirando o sono de ACM Neto. Se embarcar definitivamente no bolsonarismo, poderá fechar portas importantes num estado onde Lula ainda possui enorme força popular e simbólica. Se tentar manter distância, poderá preservar parte do eleitor moderado — mas ao custo de desagradar a uma direita que trabalha, sobretudo, com posições totais: quer alinhamento completo, discurso duro contra o PT, enfrentamento permanente.
Síntese do Dilema
“Os extremos cresceram tanto que começaram a esmagar as tentativas corajosas de nuance. ACM Neto agora precisa decidir qual será sua identidade política definitiva. E há decisões que, depois de tomadas, mudam para sempre não apenas uma eleição — mas toda uma trajetória.”
— Padre Carlos
O Labirinto Sem Saída Simples
Talvez o grande drama da política brasileira atual seja esse: os extremos cresceram tanto que começaram a esmagar o espaço do diálogo. O político que tenta dialogar com diferentes setores já não é visto como habilidoso — é suspeito. A moderação virou fraqueza. A nuance, traição.
E é nesse ambiente que ACM Neto precisa jogar. Um ambiente em que o bolsonarismo, sobretudo, exige alinhamento total. Não aceita meias posições. Não aceita aproximações táticas sem comprometimento ideológico. Quer o candidato no palanque, no discurso, na narrativa. E, ao mesmo tempo, uma Bahia plural, miscigenada culturalmente e com profundas marcas do lulismo popular, não aceita facilmente a radicalização sem custo.
É um labirinto. E, ao contrário dos labirintos das fábulas, este não tem fio de Ariadne. Tem apenas escolhas difíceis — e consequências irreversíveis.
Na mesa da política baiana, a bola já foi posicionada no canto. O problema é que qualquer tacada pode levar direto à caçapa — ou ao abismo.
2026 será uma eleição que exigirá muita sabedoria. E talvez seja exatamente essa sabedoria — essa coragem de não se deixar engolir pelos extremos — o bem mais escasso na política brasileira de hoje.
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Padre Carlos
Teólogo, sacerdote e colunista político
Editor do Política e Resenha · Vitória da Conquista, Bahia




