Política e Resenha

Política ou Organização Criminosa? O Rio Já Não Consegue Explicar a Diferença

 

 

Padre Carlos

O Rio de Janeiro vive uma tragédia institucional que já ultrapassou os limites da crise política comum. O que emerge das recentes denúncias envolvendo a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro não é apenas mais um escândalo administrativo. É a exposição brutal de um modelo de poder sustentado pela degradação ética, pela naturalização da corrupção e pela captura das estruturas do Estado por interesses privados.

A exoneração de 1.600 funcionários fantasmas pelo governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto, deveria ser recebida como uma medida elementar de respeito ao dinheiro público. Em qualquer democracia minimamente funcional, eliminar servidores que sequer possuem crachá, acesso ao sistema interno ou presença física no local de trabalho seria visto como obrigação administrativa básica.

No entanto, no Rio de Janeiro, a moralidade parece ter sido transformada em provocação política.

A reação de setores da Assembleia Legislativa foi reveladora. Em vez de defenderem transparência, investigação e responsabilização, alguns deputados passaram a ameaçar divulgar nomes de supostas amantes de desembargadores que receberiam salários públicos sem trabalhar. A gravidade da situação é dupla: além da possível existência de novos funcionários fantasmas ligados ao Judiciário, a ameaça revela que havia conhecimento prévio desses fatos e que, mesmo assim, ninguém tomou providência.

Isso é extremamente sério.

Quando agentes públicos silenciam diante de crimes que conhecem, deixam de ser apenas espectadores e passam a integrar o problema institucional. O silêncio seletivo transforma-se em cumplicidade. E é exatamente aí que surge a suspeita de prevaricação: autoridades que deveriam agir em defesa da lei preferem o cálculo político, a conveniência e os acordos de bastidores.

O mais preocupante é perceber como o sistema parece operar por meio de mecanismos de proteção mútua. Um setor não denuncia o outro porque todos acumulam informações comprometedoras entre si. Forma-se uma estrutura em que a chantagem substitui a ética, e o interesse corporativo sufoca o interesse público.

Enquanto isso, a população assiste perplexa ao colapso da confiança nas instituições.

O cidadão que enfrenta hospitais precários, insegurança crescente, transporte público deficiente e uma carga tributária sufocante descobre que parte do dinheiro público pode ter sido utilizada para sustentar esquemas de funcionários fantasmas, cabides políticos e repartição ilegal de salários.

A rachadinha, infelizmente, deixou de ser exceção escandalosa para tornar-se, em muitos ambientes políticos, prática banalizada. O que deveria causar indignação absoluta passou a ser tratado como engrenagem informal do sistema político.

E talvez esse seja o aspecto mais perigoso da crise brasileira: a normalização da corrupção.

O Rio de Janeiro já convive há décadas com sucessivos escândalos envolvendo governadores presos, deputados investigados, conselheiros afastados e denúncias que atingem diferentes esferas de poder. A repetição contínua desses episódios produz um efeito devastador: a erosão moral da sociedade e o descrédito absoluto das instituições republicanas.

Quando a população começa a acreditar que todos os poderes estão contaminados, instala-se um sentimento coletivo de desesperança. E nenhuma democracia sobrevive por muito tempo sem confiança pública.

É evidente que denúncias precisam ser investigadas com responsabilidade, respeitando o devido processo legal e a presunção de inocência. Mas isso não diminui a necessidade urgente de uma apuração rigorosa sobre os funcionários fantasmas, sobre eventuais esquemas de rachadinha e sobre possíveis redes de proteção institucional.

O Ministério Público, os tribunais de controle e o próprio Judiciário têm obrigação de agir com independência e transparência. O silêncio institucional diante de fatos tão graves seria mais uma agressão à sociedade brasileira.

O caso do Rio de Janeiro também revela algo mais profundo: o fracasso de uma cultura política construída sobre apadrinhamento, fisiologismo e loteamento do Estado. Quando cargos públicos deixam de servir ao interesse coletivo e passam a funcionar como moeda de troca para sustentação política, o Estado perde sua finalidade republicana.

E a consequência inevitável é o colapso.

O Rio é um dos estados mais ricos do país, com enorme potencial econômico, turístico e cultural. Ainda assim, convive com crises fiscais permanentes, violência estrutural e escândalos sucessivos. Isso não ocorre por falta de recursos. O problema central é a corrosão ética das estruturas de poder.

O combate à corrupção não pode depender da conveniência política de grupos ou disputas internas de poder. Não pode surgir apenas quando alianças se rompem. A moralidade pública não pode ser seletiva.

Se houve funcionários fantasmas ligados a deputados, que sejam investigados.

Se houve funcionários fantasmas ligados ao Judiciário, que sejam investigados.

Se órgãos de fiscalização fecharam os olhos, que também respondam.

Porque a democracia só sobrevive quando ninguém está acima da lei — nem políticos, nem magistrados, nem grupos que transformaram o Estado em patrimônio privado.

E talvez a pergunta mais dolorosa seja justamente esta: quantos escândalos ainda serão necessários para que o Brasil compreenda que corrupção sistêmica não destrói apenas cofres públicos — destrói a própria ideia de República?