Por Padre Carlos
Em um Brasil dilacerado pela polarização política, onde cada gesto público vira trincheira de guerra ideológica, o ministro Alexandre de Moraes protagonizou, nesta semana, um ato de rara elegância republicana. Após a cerimônia de posse do ministro Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Moraes estendeu a mão para cumprimentar Michelle Bolsonaro, figura central do bolsonarismo. A imagem, capturada pelo Metrópoles, não é mero protocolo: é um lembrete potente de que a República, acima de tudo, exige decência e transcendência partidária.
Vivemos tempos em que o Judiciário é acusado de parcialidade por um lado e de leniência por outro. Moraes, alvo de críticas ferozes da direita por suas decisões contra fake news e extremismo digital, e de desconfiança da esquerda por sua rigidez processual, poderia ter evitado o gesto. Poderia ter mantido a distância fria, alimentando o ciclo de ódio que transforma o STF em ringue. Em vez disso, optou pelo cumprimento respeitoso. Não foi subserviência, mas maturidade: um reconhecimento de que Michelle, como cidadã e esposa de um ex-presidente, merece o tratamento protocolar, independentemente de divergências.
Esse episódio evoca a essência da República brasileira, forjada em 1889 não por unanimidade, mas por consensos frágeis. Lembremos Deodoro da Fonseca, que depôs o Império sem guilhotinas, ou Getúlio Vargas, que oscilou entre ditadura e democracia sem perder o freio da convivência. Hoje, com eleições municipais fervendo e o fantasma do 8 de janeiro ainda rondando, gestos como esse são vacinas contra o veneno da divisão. Eles dizem aos brasileiros: “Disputem ideias com vigor, mas preservem a humanidade do outro”.
Críticos de Moraes dirão que é hipocrisia, um disfarce para suas “censuras”. Mas e se for o contrário? E se esse aperto de mãos for o verdadeiro teste de imparcialidade — provar que o ministro julga causas, não pessoas? Michelle Bolsonaro, por sua vez, retribuiu o gesto com naturalidade, sinalizando que o bolsonarismo não é sinônimo de radicalismo eterno. Em uma nação onde famílias se dividem à mesa por política, isso é revolucionário.
Não idealizo: a polarização persiste, alimentada por redes sociais e lideranças que lucram com o caos. Mas atos como esse de Moraes nos convidam a um pacto republicano mínimo — o da cortesia. Se o TSE, sob Nunes Marques, souber replicar essa serenidade nas urnas de 2026, teremos dado um passo para curar feridas. Caso contrário, o risco é o abismo.
Parabéns, ministro: seu gesto foi maior que suas togas.





