Política e Resenha

ARTIGO — O Banqueiro, as Traças e o Evangelho Segundo a Conveniência

 

(Padre Carlos)

Há algo de profundamente irônico no destino de certos homens poderosos. Passam a vida acreditando que dinheiro compra tudo: amizades, silêncio, fidelidade, reputação e até absolvição moral. Depois descobrem, tarde demais, que existem duas instituições que não aceitam TED nem PIX: a solidão e a prisão.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro parece estar aprendendo isso da maneira mais amarga possível. Aquele que circulava entre empresários, políticos, ministros e operadores do mercado como um maestro da alta finança agora experimenta o cheiro úmido das celas da Polícia Federal. O homem que provavelmente já escolheu vinhos de cinco dígitos agora precisa administrar minutos de visita cronometrados como se fossem gotas de água no deserto.

E o mais curioso não é a prisão. Prisão, no Brasil, para certos personagens, quase sempre vem acompanhada de colchão especial, cela diferenciada, café gourmet e habeas corpus delivery. O realmente fascinante é o abandono.

Ah, o abandono…

O “irmão do peito”, aquele que jurava lealdade eterna enquanto tentava arrancar do bolso do banqueiro algo em torno de 130 milhões, evaporou-se como fumaça de charuto cubano em gabinete refrigerado. Na hora da fartura, todos brindam. Na hora da cela comum, os amigos descobrem compromissos inadiáveis, problemas de agenda e súbitas crises de amnésia moral.

É dando que se recebe, dizia São Francisco de Assis. Talvez Vorcaro tenha entendido a frase de forma muito financeira. Achou que bastava distribuir favores aos amigos certos e alimentar o sistema para receber proteção perpétua. Mas o capitalismo afetivo de Brasília funciona diferente: quando o navio começa a afundar, os ratos não fazem delação… apenas correm.

O ministro André Mendonça determinou a transferência do banqueiro para uma cela comum na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A ironia ganhou contornos quase literários quando se soube que a mesma unidade já hospedou Jair Bolsonaro. Brasília virou uma espécie de Airbnb da crise institucional brasileira: entra presidente, sai banqueiro, entra operador, sai lobista. Falta apenas um programa de milhagem.

Mas o detalhe mais devastador talvez esteja no bastidor revelado pelos investigadores: a delação de Vorcaro teria decepcionado. Pouco empenho, poucas novidades, pouca utilidade. Em outras palavras, até para virar colaborador é preciso entregar performance.

No Brasil contemporâneo, até o arrependimento virou commodity.

A Polícia Federal, segundo relatos, já teria mais informações do que aquelas oferecidas pelo banqueiro. Imagino o constrangimento. O homem acostumado a negociar cifras bilionárias descobre que seu estoque de segredos perdeu valor de mercado. É como chegar à Bolsa de Valores oferecendo ações de uma empresa já falida.

E assim, lentamente, o personagem vai sendo entregue às traças — expressão perfeita para descrever o destino daqueles que deixam de ser úteis ao sistema que os alimentava. Porque o poder brasileiro não cultiva amigos; cultiva conveniências. Não existe fraternidade em círculos oligárquicos. Existe contabilidade emocional.

Enquanto o dinheiro circula, todos sorriem. Quando a PF fecha a porta da cela, até os abraços evaporam.

Talvez Daniel Vorcaro esteja finalmente descobrindo algo que os pobres aprendem cedo e os ricos demoram décadas para entender: a Justiça pode até ser desigual, seletiva e cheia de privilégios… mas a solidão da queda continua sendo democrática.

E as traças, como sabemos, adoram luxo abandonado.