Coluna / Padre Carlos
O Lucro Acima da República:
A Faria Lima e Seu Candidato Ideal

Uma análise sobre hipocrisia, mercado financeiro e a democracia de conveniência praticada pelos templos do capital nacional.
Por Padre Carlos | Edição Especial
A
Faria Lima é uma coisa curiosa. Ela acorda todos os dias preocupadíssima com a democracia. Profundamente abalada com as instituições. Chora copiosamente pela República. Sofre pela moralidade pública. Defende a ética com a mesma paixão com que um tubarão vegetariano defende uma salada de alface.
Desde que isso não atrapalhe os dividendos, claro.
Porque, no fim das contas, o grande altar daquela turma não é a Constituição. É o lucro trimestral.
“Eles passam anos falando em responsabilidade fiscal, austeridade, equilíbrio das contas públicas e disciplina econômica como se fossem monges franciscanos da contabilidade nacional.”
— Padre Carlos
Existe uma hipocrisia quase poética em certos setores do mercado financeiro brasileiro. Eles passam anos falando em responsabilidade fiscal, austeridade, equilíbrio das contas públicas e disciplina econômica como se fossem monges franciscanos da contabilidade nacional. Mas basta aparecer um candidato prometendo privatizar até o vento, desmontar direitos trabalhistas e entregar patrimônio público em liquidação que o coração da Faria Lima bate mais forte que adolescente em show sertanejo.
Aí a ética entra em home office.
A Liberdade Que Só Vale Para Uns
O curioso é que essa turma adora posar de defensora da liberdade. Liberdade econômica, claro. Porque liberdade democrática mesmo é um detalhe negociável. O Chile de Pinochet está aí como vitrine histórica dessa contradição grotesca. Durante anos venderam aquela tragédia humana como “milagre econômico”, enquanto gente era torturada, assassinada e desaparecia nos porões da ditadura.
Mas o PIB estava sorrindo.
E aparentemente, para certos sacerdotes do mercado, quando o PIB sorri, os direitos humanos viram apenas um pequeno inconveniente administrativo.
A mesma lógica aparece agora no Brasil com uma transparência quase ofensiva. O mercado não está preocupado se Flávio Bolsonaro representa risco institucional, desgaste democrático ou aprofundamento da radicalização política. Não. A preocupação é outra, muito mais sublime: “Dá pra ganhar dinheiro com ele?”
Essa é a pergunta filosófica central da Faria Lima. Aristóteles choraria.
O Medo Não Era da Corrupção
Quando surgiram as informações sobre as relações promíscuas envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, o mercado reagiu como? Com indignação moral? Com revolta ética? Com defesa da moralidade pública?
Claro que não.
O dólar subiu, a bolsa oscilou e começou um surto coletivo de calculadora financeira. O medo não era da corrupção. O medo era do Lula voltar fortalecido politicamente. Porque corrupção, convenhamos, nunca foi exatamente um impeditivo moral para certas elites brasileiras. Se fosse, metade dos jantares em restaurantes caros de São Paulo terminaria vazia.
O mercado não quer um santo. Quer um gerente eficiente dos seus interesses.
E é engraçado assistir certos analistas fingindo surpresa. Como se a Faria Lima tivesse algum compromisso histórico com pobres, trabalhadores ou democracia social. Meu Deus, que inocência comovente. Aquela turma não frequenta reunião para discutir desigualdade social. Frequenta reunião para discutir taxa de juros, câmbio, privatização e maneiras elegantes de chamar precarização de “modernização”.
A Dieta Fiscal Só Vale Para os Outros
Quando Bolsonaro torrou dinheiro público no último ano de governo, empurrou precatórios para o espaço sideral e promoveu uma irresponsabilidade fiscal digna de concurso público para caos administrativo, o mercado fez o quê?
Fez egípcia.
Fingiu que não viu. Sumiu misteriosamente aquela paixão arrebatadora pelo equilíbrio fiscal. Aqueles comentaristas que tinham orgasmos intelectuais ao falar de teto de gastos ficaram subitamente mudos, contemplativos, quase espiritualizados.
Porque havia um cálculo maior: a chance de continuidade de um projeto econômico favorável ao grande capital.
“A austeridade fiscal no Brasil funciona igual dieta de rico: só vale para os outros.”
E agora assistimos a esse espetáculo tragicômico da Faria Lima tentando descobrir se Flávio Bolsonaro é “viável”. Veja a degradação do debate nacional. Não se pergunta sobre capacidade administrativa, projeto de país, compromisso institucional ou visão de futuro.
A pergunta é: “Ele aguenta os BOs?” É quase emocionante.
Embalagens Temporárias de uma Obsessão Permanente
O mais engraçado é que, se amanhã Ronaldo Caiado aparecesse liderando pesquisas com força eleitoral real, parte desse mercado largaria o bolsonarismo na calçada mais rápido do que corretor abandona ação em queda livre.
Porque não existe amor. Existe rentabilidade.
Bolsonaro, Flávio, Caiado ou qualquer outro são apenas embalagens temporárias para uma mesma obsessão permanente: impedir qualquer projeto minimamente popular que fortaleça Estado, direitos sociais ou distribuição de renda.
E aqui está a grande ironia da história: enquanto demonizam Lula diariamente, os bancos continuam lucrando bilhões durante o governo Lula. Os rentistas seguem enriquecendo. O sistema financeiro continua nadando em dinheiro.
Mas não basta lucrar. Eles querem controlar o projeto de país.
Querem um Brasil onde trabalhador tenha medo, sindicato seja decorativo, privatização vire religião e direitos sociais sejam tratados como luxos inconvenientes.
Análise de Classe
No fundo, a indignação verdadeira não é econômica. É de classe.
Parte da elite brasileira nunca suportou a ideia de pobre frequentando aeroporto, universidade, shopping ou ocupando espaços de poder. Isso produz em certos círculos um desconforto quase dermatológico.
O Teste Final
A Faria Lima pode até falar em democracia nos seminários elegantes patrocinados por bancos e fundos de investimento. Pode escrever manifestos perfumados em defesa das instituições. Pode posar de civilizada nas colunas econômicas.
Mas quando chega a hora decisiva, o teste é simples:
“Quem protege melhor os meus interesses?”
O resto é powerpoint moralista para inglês ver.
E o Brasil segue refém dessa elite que trata democracia como aplicativo de celular: usa quando é conveniente e desinstala quando começa a atrapalhar os lucros.
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Padre Carlos
Colunista | Análise Política
Escritor e analista político. Especializado em crítica das estruturas de poder, mercado financeiro e democracia no Brasil contemporâneo.
Reprodução autorizada com citação da fonte — Padre Carlos




