Política e Resenha

ARTIGO — A Democracia Sem Poder: Quando Ganhar Eleição Já Não Basta

Padre Carlos

Existe uma pergunta que começa a ecoar com força crescente no Brasil — uma pergunta desconfortável, incômoda e profundamente reveladora: afinal, quem governa o país?

O presidente eleito? O Congresso? O mercado? O Banco Central? Os bancos? O sistema financeiro? As emendas parlamentares? O Supremo? As agências reguladoras? As corporações internacionais?

Talvez o maior drama político brasileiro contemporâneo seja exatamente este: o povo vota, mas o voto parece incapaz de alterar estruturalmente os rumos do Estado.

E isso nos leva a um debate que muita gente evita fazer com honestidade intelectual.

O problema do Brasil não é apenas a falta de vontade política do executivo. O problema é o modelo de Estado que foi sendo montado ao longo das últimas décadas — um Estado progressivamente amputado de sua capacidade de decisão política.

Privatizações sucessivas retiraram do poder público instrumentos estratégicos de desenvolvimento. O Banco Central ganhou independência formal, criando uma espécie de poder paralelo blindado da vontade popular. O orçamento tornou-se sequestrado por mecanismos automáticos da dívida pública. O presidencialismo brasileiro virou um sistema de reféns parlamentares. E o governo eleito passou a administrar migalhas dentro de uma máquina capturada por interesses permanentes.

Nesse ponto, há uma crítica que merece ser levada a sério: talvez realmente tenha chegado o momento em que se ganha eleição, mas não se governa.

O curioso — e até trágico — é que o próprio governo parece reconhecer isso na prática, embora jamais admita publicamente.

Porque se as forças progressistas acreditasse verdadeiramente na possibilidade de transformação estrutural, teria feito o quê?

Teria denunciado permanentemente o peso da dívida pública sobre o orçamento nacional.

Teria transformado a independência do Banco Central em tema central do debate popular.

Teria feito campanha pela reconstrução do papel estratégico das estatais.

Teria explicado didaticamente ao povo por que saúde, educação e infraestrutura vivem sufocadas.

Teria politizado o debate econômico.

Mas o que aconteceu?

A esquerda preferiu outra estratégia: a propaganda da normalidade.

A narrativa escolhida foi a de que “o Brasil voltou”, de que “tudo está funcionando”, de que “o crescimento voltou”, de que “o desemprego caiu”, de que “a democracia venceu”.

Só existe um pequeno problema nessa construção publicitária: a vida real.

Porque a população olha ao redor e vê hospitais superlotados, violência crescente, serviços públicos deteriorados, renda comprimida, alimentos caros, sensação de insegurança econômica e um país sem horizonte coletivo.

Então surge uma contradição devastadora.

Se o governo diz que tudo é maravilhoso, mas o povo continua sentindo a deterioração da própria vida, o resultado inevitável é o desgaste político.

E talvez esteja aí a verdadeira crise da esquerda e do partido hegemônico.

Não numa conspiração mística da extrema-direita.

Não apenas nas fake news.

Não exclusivamente no bolsonarismo.

Mas na incapacidade de produzir uma narrativa crítica sobre os próprios limites estruturais do sistema brasileiro.

O partido parece preso numa armadilha psicológica e eleitoral: precisa defender os próprios governos como grandes sucessos históricos, mas ao fazer isso acaba assumindo como “vitrine de sucesso” um país onde a maioria da população continua frustrada.

E a população responde da maneira mais simples possível:
“Se isso é o melhor que vocês conseguem oferecer, então talvez não seja suficiente.”

A verdade é que Lula venceu eleições históricas sem jamais possuir maioria orgânica no Congresso Nacional.

Nem Lula teve.

Nem Dilma teve.

E dificilmente qualquer governo popular terá dentro do atual modelo político brasileiro.

O sistema eleitoral fragmentado, o poder regional dos governadores, o fisiologismo parlamentar, o orçamento secreto reciclado em novas formas e a hipertrofia do Centrão criaram uma espécie de semiparlamentarismo informal, onde o presidente governa permanentemente ajoelhado diante de coalizões oportunistas.

O resultado é um governo que negocia sobrevivência diariamente.

E aqui emerge um impasse brutal.

Se hoje, com toda a experiência acumulada de Lula, o governo já encontra enormes dificuldades para implementar mudanças mais profundas, o que acontecerá num próximo mandato?

Provavelmente veremos um governo ainda mais limitado, mais pressionado, mais dependente e mais incapaz de produzir transformação estrutural.

Isso cria uma sensação perigosa para a democracia.

A sensação de inutilidade do voto.

E quando a população começa a acreditar que votar não muda mais nada essencial, abre-se espaço para o cinismo político, para o extremismo e para líderes que prometem “explodir o sistema”.

Toda democracia morre um pouco quando o povo percebe que escolhe governos sem escolher os verdadeiros centros de poder.

O Brasil parece caminhar exatamente sobre essa linha de tensão.

E talvez a pergunta mais importante do nosso tempo não seja mais “quem vai ganhar a próxima eleição?”

Talvez a pergunta correta seja:

Quem realmente controla o Estado brasileiro?