Política e Resenha

O Naufrágio da Marca Bolsonaro: Quando Até o Marqueteiro Pula do Barco

 

 

Padre Carlos

 

A política brasileira sempre teve seus momentos de cinismo, sobrevivência e conveniência. Mas existe uma regra silenciosa no submundo do marketing político: marqueteiro não abandona campanha quando o projeto está crescendo. Marqueteiro abandona quando sente cheiro de fumaça antes do incêndio. E foi exatamente isso que o Brasil viu acontecer após o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e o Banco Master.

A saída de Chico Mendez da coordenação de imagem e das redes sociais de Flávio Bolsonaro não é apenas uma troca técnica de profissionais. Não é simples “reestruturação”. Não é “mudança de ciclo”. Na linguagem real da política, isso tem outro nome: distanciamento preventivo.

Em Brasília, ninguém larga um ativo político por acaso. Principalmente alguém que estava profundamente envolvido na estratégia de comunicação de um dos sobrenomes mais poderosos da direita brasileira. Quando um marqueteiro decide sair no meio da tempestade, o gesto fala mais do que qualquer nota oficial cuidadosamente escrita por assessores.

A política moderna é movida por percepção. E percepção é tudo. O eleitor pode até não compreender os detalhes de operações financeiras, articulações empresariais ou estruturas bancárias sofisticadas, mas entende perfeitamente sinais de abandono. E a saída do estrategista de comunicação de Flávio Bolsonaro transmite exatamente isso: desgaste, instabilidade e medo de contaminação de imagem.

O escândalo do Banco Master trouxe novamente para o centro da arena um problema que acompanha o bolsonarismo há anos: a contradição entre o discurso moralista e as sucessivas crises envolvendo aliados, operadores políticos e relações nebulosas de poder. O grupo político que surgiu prometendo destruir “o sistema” acabou sendo tragado pelas mesmas práticas que dizia combater.

Esse talvez seja o maior drama da marca Bolsonaro hoje. Não se trata apenas de investigação, denúncias ou desgaste momentâneo. Trata-se da erosão simbólica de uma narrativa construída com enorme eficiência digital desde 2018.

Durante anos, o bolsonarismo vendeu a imagem de pureza política, de enfrentamento ao establishment e de superioridade moral. Porém, a repetição contínua de escândalos começou a corroer aquilo que era seu maior patrimônio: a confiança emocional da base popular.

E é exatamente aí que entra a importância da saída de um marqueteiro.

Porque os profissionais de comunicação vivem de leitura de ambiente. Eles captam antes dos outros quando uma marca política começa a perder força, quando o desgaste se torna estrutural e quando a rejeição ameaça superar a capacidade de mobilização.

A decisão de Chico Mendez parece carregar justamente essa leitura silenciosa dos bastidores. Talvez tenha percebido que o ambiente começou a ficar tóxico demais. Talvez tenha entendido que a blindagem digital já não produz o mesmo efeito. Talvez tenha concluído que a narrativa da perseguição eterna começa a apresentar sinais claros de fadiga.

O fato é que o episódio produz um estrago simbólico enorme.

Num momento em que a direita brasileira tenta reorganizar seu futuro, construir novas lideranças e sobreviver ao pós-Jair Bolsonaro, crises como essa ampliam rachaduras internas e aumentam a sensação de desorientação política.

A verdade é dura: movimentos políticos conseguem sobreviver a denúncias. O que raramente sobrevivem é à perda da aura.

E a aura do bolsonarismo já não parece intacta como antes.

As redes sociais continuam fortes, os apoiadores permanecem mobilizados e existe ainda uma base radicalizada extremamente fiel. Mas a imagem de invencibilidade começou a sofrer fissuras visíveis. O desgaste deixou de ser apenas institucional e passou a atingir algo mais profundo: a confiança estratégica de quem opera nos bastidores.

Quando até o marqueteiro começa a sair de cena, é porque os bastidores já escutam sons que o público ainda está começando a perceber.

Na política, existem momentos em que os ratos abandonam o navio. Mas existem momentos ainda mais perigosos: quando os arquitetos da propaganda deixam de acreditar na própria narrativa.

E talvez seja exatamente isso que o Brasil esteja assistindo agora.