Política e Resenha

Vocaro Voltou à Cela VIP — Porque no Brasil Até a Prisão Respeita Classe Social

 

Por Padre Carlos

 

Há notícias que não informam — elas escancaram. Rasgam o verniz. Derrubam a maquiagem da República. E essa discussão sobre em qual cela colocar o banqueiro André Esteves de ocasião, ou o ex-banqueiro da vez, Vorcaro, é uma dessas.

De repente, o Brasil descobriu que cadeia não tem água.

Que surpresa.

Agora também descobriram que cela é quente. Escura. Sem ventilação. Sem dignidade. Quase um retiro medieval patrocinado pelo Estado.

Quem diria.

Eu me lembro bem dos anos de Pastoral Carcerária. Corredores abafados. Gente amontoada feito saco de cimento velho. Homem dormindo em pé porque não havia chão para todos. Água chegando quando queria. Luz faltando quando havia. Ventilação? Só quando Deus soprava. E ali ninguém perguntava pela umidade da parede, pelo conforto térmico ou pela ergonomia do colchão — até porque colchão quase nunca havia.

Mas agora há espanto.

Agora virou escândalo.

Porque, ao que parece, quando o preso tem sobrenome importante, patrimônio bilionário e advogado de terno caro, a cela precisa obedecer a padrões suíços de hospedagem.

Sem água? Um absurdo institucional.

Sem ventilação? Violação gravíssima dos direitos humanos.

Sem iluminação? Atentado contra a dignidade da pessoa.

Interessante.

Porque quando o preso é um rapaz da periferia, negro, pobre, preso por furtar um celular ou por roubar mil reais de um aposentado na saída do banco… a resposta do sistema sempre foi mais simples:

“É isso mesmo. É cadeia.”

O juiz sequer pisca.

O defensor reclama da cela sem água, sem luz e sem ar… e a Justiça responde com um encolher de ombros quase burocrático:

“Quer que eu coloque ele onde?”

Mas eis que aparece um homem acusado de movimentações bilionárias, suspeitas que envolvem cifras que o brasileiro comum nem consegue pronunciar sem tropeçar nos zeros… e aí a precariedade do sistema carcerário vira tema urgente.

Aí a cela importa.

A água importa.

A luz importa.

O calor importa.

A dignidade importa.

Que milagre.

É importante dizer: ninguém sério defende cela podre. Ninguém deveria aceitar seres humanos vivendo sem água, sem ventilação ou sem higiene — seja banqueiro ou ladrão de galinha. O problema não é reclamar disso.

O problema é lembrar disso só quando o preso usa sapato italiano.

Porque o que está em debate não é o estado da prisão.

É quem está preso nela.

E isso desnuda a maior hipocrisia nacional.

A Constituição Federal, essa senhora elegante que todos gostam de citar em cerimônia pública, diz que todos são iguais perante a lei.

Todos.

Sem distinção.

Bonito no papel.

Emoldurável.

Mas basta entrar numa cadeia brasileira para perceber que o artigo constitucional para na porta do presídio.

Lá dentro existe outro código:

um para o pobre,

outro para o rico.

Um para quem não tem sobrenome,

outro para quem frequenta conselho de administração.

Um para o homem sem advogado,

outro para quem chega acompanhado de banca criminalista e habeas corpus protocolado antes mesmo da algema esfriar.

No Brasil, cadeia sempre foi construída para armazenar pobreza.

Nunca para enfrentar poder.

Quando um poderoso vai parar atrás das grades, o sistema entra em crise existencial. Não sabe onde coloca. Não sabe como recebe. Não sabe como tratar. Porque foi desenhado historicamente para encarcerar os descartáveis — nunca os donos do jogo.

E talvez seja exatamente isso que incomode tanto.

Não a cela.

Mas o espelho.

Porque, quando um rico reclama das condições do cárcere e a sociedade finalmente olha para dentro do presídio, ela vê aquilo que os pobres vêm denunciando há décadas.

Só que agora com cobertura da imprensa, nota de advogado e indignação de gabinete.

A masmorra continua a mesma.

Só mudou o CPF do ocupante.

E o país, constrangido, finge surpresa diante daquilo que sempre soube.