Política e Resenha

A Guerra é a Mãe de Toda Comunicação Política

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A Guerra é a Mãe de Toda Comunicação Política

De Esparta ao feed do Instagram, a mesma guerra de símbolos que decide impérios e eleições — antes de uma bala ser disparada ou um voto depositado.

Por Padre Carlos

Publicado em 25 de maio de 2026  ·  11 min de leitura

É
muito interessante — e revelador — assistir à guerra de memes que grupos de direita e de esquerda vêm travando contra seus opositores nas redes sociais. Há nisso uma brutalidade quase paleolítica: a imagem antes da palavra, o símbolo antes do argumento, o instinto tribal antes da razão. Mas engana-se quem enxerga nisso algo novo. Algo inédito da era digital. Algo que surgiu com o smartphone.

É muito oportuno — e necessário — lembrar que a relação eleição–guerra–comunicação política já data de milhares de anos. Sim, eu disse milhares. Uma relação tão íntima, tão produtiva para ambos os lados, que alguns estudiosos chegam a considerar as eleições e as guerras como “laboratórios extremos de comunicação”. Laboratórios onde a aposta é máxima — o poder ou a vida —, e onde, por isso mesmo, a criatividade comunicacional atinge seus picos mais altos e mais sombrios.

O Estandarte é o Primeiro Tweet da História

Desde que, em tempos imemoriais, comandantes introduziram nos fronts trombetas, tambores, estandartes, escudos pintados, cores, bandeiras, roupas vistosas e refrões de ataque ou de campanha — a comunicação política vem coexistindo e evoluindo como armamento simbólico. O general persa que mandava pintar seus soldados de escarlate para parecerem invencíveis e intimidar o inimigo antes do combate estava fazendo exatamente o que um marqueteiro eleitoral de alto nível faz hoje: construir a percepção de força antes de qualquer confronto real. A batalha psicológica antecede a batalha física. Sempre antecedeu.

Os romanos entenderam isso de forma magistral. O desfile do triunfo — a pompa triumphalis — era pura comunicação de massa avant la lettre. Não bastava vencer. Era preciso que todos vissem a vitória, que todos a sentissem nos ossos, que todos soubessem a quem pertencia o poder. Os cativos acorrentados, os carros repletos de espólios, as multidões no trajeto: tudo era encenação política calculada com a frieza de um roteirista moderno.

“O controle das narrativas é tão importante quanto o controle de territórios — e as técnicas de sedução, manipulação e mobilização são armas tão poderosas dentro quanto fora dos teatros de guerra.”

Princípio Estratégico Milenar  ·  Ainda Vigente

Irã, EUA e o Oriente Médio: A Guerra Antes da Guerra

Olhemos para o presente. O conflito entre Irã e Estados Unidos — que nunca foi apenas um conflito militar — é talvez o exemplo contemporâneo mais sofisticado desta simbiose. Antes de qualquer míssil ser lançado, centenas de operações simbólicas já haviam sido disparadas. Washington chama o regime iraniano de “Estado terrorista”. Teerã chama os EUA de “Grande Satã”. Cada lado fabrica, com precisão cirúrgica, uma imagem do inimigo que justifica qualquer ação — presente ou futura.

Israel e Hamas, por sua vez, travam no campo comunicacional uma batalha que rivaliza em intensidade com a batalha física. Cada imagem de criança em Gaza é uma operação de propaganda — não porque a dor não seja real, mas porque a seleção, a distribuição e o enquadramento dessas imagens obedece a uma lógica estratégica implacável. Do outro lado, cada mapa publicado por Israel mostrando a extensão dos túneis do Hamas é também um artefato comunicacional projetado para justificar a intensidade da resposta militar. A guerra de imagens antecede, acompanha e sobrevive à guerra de bombas.

A grande lição geopolítica que os estrategistas aprenderam — e que os marqueteiros eleitorais aplicam — é simples e brutal: quem controla a narrativa controla o campo de batalha antes de qualquer disparo. Sun Tzu sabia disso no século V a.C. Goebbels soube com perversidade absoluta no século XX. Steve Bannon soube — a seu modo nauseabundo — no século XXI.

As Duas Guerras Mundiais e a Forja da Comunicação Moderna

As duas guerras mundiais do século passado — e seu entreato tenso, pontuado pela ascensão do fascismo, do nazismo e do stalinismo — foram marcos absolutamente decisivos nessa simbiose entre guerra e comunicação. A Primeira Guerra Mundial viu nascer, em escala industrial, os cartazes de recrutamento, a censura de imprensa organizada pelo Estado, os boletins de propaganda de trincheira. O famoso cartaz do Uncle Sam — “I Want You” — é tão eficaz como peça de comunicação que ainda circula hoje, cem anos depois, em versões derivadas por todo o mundo digital.

A Segunda Guerra Mundial foi mais longe ainda. Ela produziu o rádio como arma política — Churchill falando para a nação sitiada, Roosevelt fazendo suas “conversas à beira da lareira”, Hitler berrando em Nuremberg para multidões calculadamente enlouquecidas. Produziu o documentário de propaganda (Riefenstahl é ainda hoje estudada em escolas de cinema e comunicação, por mais que cause desconforto). Produziu o panfleto lançado de avião sobre cidades inimigas. Produziu o jornal mural. Produziu a ideia — moderna e poderosa — de que o moral da população civil era um alvo militar legítimo.

Paralelo Eleitoral Brasileiro

“Eles não vão nos parar. Esse povo vai decidir.” — Lula, comício de 2022

Esta frase — aparentemente simples — carrega a mesma arquitetura retórica dos discursos de Churchill em 1940: a identificação de um inimigo difuso (“eles”), a elevação do povo à condição de herói coletivo, e a afirmação de uma inevitabilidade histórica. O marqueteiro que a escreveu — conscientemente ou não — bebeu diretamente da fonte de guerra que moldou a comunicação política do século XX. Não há acidente aqui. Há tradição.

O Meme como Estandarte do Século XXI

Voltemos à guerra de memes que abre este artigo. O que é um meme político, em sua essência? É um estandarte digital. É um tambor em formato de imagem comprimida. É a trombeta de Jericó que cabe no bolso e pode ser disparada contra milhões de pessoas simultaneamente. A lógica é exatamente a mesma dos cartazes que Leni Riefenstahl filmava sendo exibidos nos comícios nazistas — com a diferença crucial de que agora o receptor também é emissor, e a multidão fabrica seu próprio arsenal simbólico.

Os grupos bolsonaristas que transformaram a bandeira do Brasil em símbolo partisan — retirando-a do espaço comum e tornando-a propriedade de um campo político — estavam fazendo exatamente o que os generais da Antiguidade faziam com seus estandartes: criar um símbolo de identificação tribal que divide o campo em “nós” e “eles” antes de qualquer batalha real. Do outro lado, o PT que transformou a estrela vermelha e o vermelho em cores de combate — com a eficiência de quem sabia que o símbolo precede o argumento — jogava o mesmo jogo com o mesmo manual.

A diferença entre 2022 no Brasil e 1942 na Europa não é de natureza — é de velocidade e escala. O princípio é idêntico: o símbolo mobiliza; o argumento convence; mas em tempo de guerra — eleitoral ou militar — é o símbolo que chega primeiro e mais fundo.

O Laboratório Extremo — e Suas Consequências Civis

Há uma consequência desta história que poucos notam — e que me parece a mais relevante de todas para compreender o presente. As técnicas forjadas na guerra voltam sempre para o ambiente civil. O marketing político contemporâneo bebeu diretamente das táticas de recrutamento da Primeira Guerra. O jingle eleitoral tem ancestral direto no refrão de marcha militar. O spin doctor é primo-irmão do oficial de informações de guerra. A pesquisa de opinião — inventada para fins civis — foi refinada durante a Segunda Guerra para medir o moral das tropas e da população. Depois voltou para os partidos políticos como ferramenta eleitoral.

A internet — desenvolvida originalmente pelo Pentágono como rede de comunicação resistente a ataques nucleares — tornou-se o maior teatro de operações da comunicação política da história humana. O GPS, criado para guiar mísseis, hoje guia eleitores para os locais de votação e analistas para os redutos adversários no mapa eleitoral. Tudo que nasce na guerra migra para a política. Tudo que nasce na política contamina a guerra. É um ciclo sem fim — e é fascinante em sua perversidade.

“Este tema é tão rico e interessante — tão carregado de implicações para quem quer entender o que acontece no Brasil de hoje e no mundo de amanhã — que vou parar por aqui. E volto outro dia. Até lá.”

O Articulista

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Articulista de Opinião: Padre Carlos

Escreve sobre o ponto onde o poder encontra a narrativa — e onde a narrativa torna-se poder.

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