Política e Resenha


Análise Política · Padre Carlos

O Amigo da Onça, o Banqueiro de Tornozeleira e o Cinema da Família

por Padre Carlos

Há algo de irresistivelmente brasileiro nessa ópera bufa protagonizada por Valdemar Costa Neto, Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. O país, que já transformou CPI em reality show e delação em gênero literário, agora ganha mais um capítulo do seu cinema político nacional: o enredo do “fui apenas buscar o restante do dinheiro”.

Eis a cena.

O banqueiro está em prisão domiciliar. Usa tornozeleira eletrônica. É alvo de investigações pesadas. A atmosfera sugere cautela, discrição, distância prudente. Mas aí entra em cena o senador Flávio Bolsonaro, que resolve fazer uma “visitinha”. Não para discutir filosofia tomista. Não para rezar o terço. Não para levar um bolo de milho ao convalescente da República financeira. Não. Segundo Valdemar Costa Neto, foi tentar recuperar recursos para o filme “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro.

O Brasil não decepciona nunca.

E o mais extraordinário não é a visita. O mais extraordinário é o sincericídio involuntário de Valdemar. O homem que deveria apagar incêndios resolveu jogar gasolina premium. Em vez de produzir uma nota protocolar, asséptica e juridicamente esterilizada, decidiu abrir a boca e entregar o roteiro inteiro:

“Foi visitar depois para ver se conseguia o restante do dinheiro.”

— Valdemar Costa Neto

Pronto. Está dito.

O talento raro de transformar defesa em confissão

Valdemar talvez seja o único dirigente partidário do planeta que consegue transformar defesa em confissão atmosférica. Há uma espécie de talento raro nisso. Ele não protege; ele complica. Não amortece; ele afunda com delicadeza artesanal.

A frase é uma joia do subtexto político brasileiro. Porque desmonta instantaneamente a narrativa anterior de que Flávio teria ido apenas “colocar um ponto final” na relação com o banqueiro. Ora, quem vai colocar ponto final normalmente não leva recibo de cobrança no bolso.

Análise

A declaração cria exatamente aquilo que advogados criminalistas mais odeiam: contexto. E contexto, em política e investigação, vale ouro.

Dark Horse: quando a ficção perde para a realidade

O detalhe cinematográfico é ainda mais sublime porque tudo gira em torno de um filme chamado “Dark Horse”. Convenhamos: nenhum roteirista satírico teria coragem de escrever algo tão perfeito. O cavalo sombrio virou metáfora involuntária da própria cena política nacional — uma mistura de faroeste, tragicomédia e pastelão institucional.

O país já viu de tudo:

‣  dinheiro em cueca,
‣  joias sauditas,
‣  mensagens apagadas,
‣  minutas golpistas,
e agora chega ao estágio superior da dramaturgia: a peregrinação financeira à casa de um banqueiro monitorado eletronicamente.

E Valdemar ainda considera tudo “a coisa mais natural do mundo”.

Natural. Sim, claro.

Tão natural quanto um submarino em Brasília.

As perguntas que a espontaneidade abriu

O problema é que a frase revela mais do que talvez ele pretendesse revelar. Porque ao admitir que havia uma tentativa de recuperar dinheiro, admite implicitamente a existência de preocupação financeira concreta envolvendo o projeto e o financiador. E isso, inevitavelmente, atrai perguntas. Muitas perguntas.

Que tipo de relação financeira era essa?
Qual o estágio dos aportes?
Quais compromissos existiam?
Que garantias havia?
Quem articulou?
Quem intermediou?

No instante em que Valdemar resolveu explicar demais, abriu-se a porta do labirinto.

A República onde o espanto morreu de exaustão

E há algo ainda mais curioso nessa história: a naturalização do absurdo. Essa talvez seja a grande marca da política brasileira contemporânea. Tudo vira “normal”. Visitar banqueiro investigado é normal. Tentar recuperar dinheiro em meio ao escândalo é normal. Reuniões constrangedoras são normais. Explicações contraditórias são normais.

Criou-se uma República onde o espanto morreu de exaustão.

Mas há um elemento especialmente irônico nisso tudo. Durante anos, setores do bolsonarismo venderam a imagem de uma moralidade inflexível, quase messiânica, como se estivessem acima da “velha política”. Hoje, estão mergulhados até o pescoço exatamente naquilo que juravam combater: articulações nebulosas, relações financeiras embaraçosas e explicações que pioram o problema original.

E então surge Valdemar — sempre ele — como uma espécie de narrador acidental da tragédia.

O amigo da onça não trai por maldade:

Trai por espontaneidade.
Fala demais.
Explica demais.
Detalha demais.

E, no fim, deixa no ar a pergunta inevitável:

se essa era a versão destinada a melhorar a situação… como seria a versão ruim?

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Padre Carlos

Colunista · Análise Política Brasileira