Quando o “Republicanismo” Vira Ausência Política e o Aliado se Transforma em Peso Morto

Por Padre Carlos | Política e Resenha
Na política, há silêncios que fazem mais estrago do que discursos inflamados. Há abraços que gelam. Há apoios que parecem bilhetes de despedida. E há também aquele tipo raro — e perigosíssimo — de aliado que, em vez de empurrar o barco para frente, abre discretamente pequenos furos no casco enquanto sorri para a tripulação.
Foi exatamente essa sensação que emergiu das declarações do ex-prefeito de Itabuna, Geraldo Simões, durante participação no Pod Gusma #37. Suas palavras não foram apenas um desabafo pessoal. Foram, sobretudo, um retrato melancólico de uma das maiores contradições da política contemporânea: o excesso de “republicanismo” que, muitas vezes, acaba funcionando como abandono político disfarçado de elegaância institucional.
Quando Geraldo afirma que Jaques Wagner e Rui Costa “nunca pediram votos” para ele, e que Jerônimo Rodrigues teria, inclusive, “tirado votos” na disputa interna do PT em 2024, o que se vê não é apenas uma crise pessoal entre correligionários. O que aparece ali é algo mais profundo: a erosão silenciosa das lealdades políticas dentro de um grupo que sempre se sustentou justamente pela ideia de unidade.
A política é como uma fogueira em noite fria.
Ela exige calor coletivo.
Quando as lideranças deixam de alimentar o fogo,
não adianta depois reclamar do escuro.
O Epísodio de Itabuna e a Frase que Tudo Revelou

Talvez o trecho mais simbólico de toda a entrevista tenha sido justamente o episódio narrado sobre Itabuna, quando Wagner, então governador, declarou em praça pública:
“Se eu estivesse em Itabuna, votaria em Juçara. Agora, quem ganhar a eleição, conte com meu apoio no governo.”
— Jaques Wagner, governador da Bahia, durante a campanha de Itabuna
A frase, vista por alguns como demonstração de espírito republicano, soou para muitos como um apoio burocrático, protocolar, quase sem alma. Um gesto administrativo em meio a uma guerra eleitoral que exigia paixão, presença e definição clara.
Porque a verdade, ainda que alguns tentem escondê-la sob o verniz sofisticado do discurso institucional, é que eleição não se vence apenas com currículo, gestão ou neutralidade elegante. Eleição se vence com energia política. Com sinalização. Com posicionamento insequívoco. O eleitor precisa sentir quem está realmente dentro da batalha.
E foi exatamente isso que Geraldo Simões traduziu ao chamar aquele apoio de “meia-boca”. A expressão pode parecer dura. Mas é devastadoramente precisa.
O Peso Simbólico do Governador no Interior da Bahia

No interior da Bahia — especialmente em cidades politicamente intensas como Itabuna — a figura do governador sempre teve peso simbólico gigantesco. O eleitor queria ouvir: “Esse é meu candidato.” Queria enxergar compromisso. Queria perceber risco compartilhado. A política nordestina, gostem ou não os teóricos dos gabinetes climatizados de Brasília, ainda é profundamente movida por vínculos emocionais e demonstrações públicas de lealdade.
Quando essa conexão desaparece, sobra apenas uma formalidade fria. E política fria raramente mobiliza multidões.
O curioso é que o próprio Geraldo relembra que até Antônio Carlos Magalhães, adversário histórico do PT, compreendia melhor essa lógica de pertencimento político. ACM podia ser duro, centralizador e até implacável, mas ninguém saía de um palanque sem saber quem era o candidato dele. Havia clareza. Havia comando. Havia direção.
Vácuo Político e as Fissuras do PT Baiano
O problema é que, muitas vezes, esse excesso de neutralidade não produz republicanismo. Produz vácuo. E vácuo político quase sempre é ocupado por ressentimento, divisão e enfraquecimento eleitoral.
Não deixa de ser emblemalótico que Geraldo Simões tenha usado justamente a palavra “desastre” para lembrar episódios semelhantes, como o famoso “água e óleo” de César Borges. Porque alianças mal conduzidas costumam deixar cicatrizes longas. Algumas sobrevivem décadas.
A fala do ex-prefeito também revela outro fenômeno importante da política baiana contemporânea: o desgaste interno das grandes lideranças históricas do PT. Durante muitos anos, o partido construiu uma imagem de coesão quase inalável na Bahia. Mas os bastidores mostram fissuras cada vez mais visíveis. E quando antigos aliados começam a falar publicamente sobre mágoas, isolamento e ausência de apoio, isso deixa de ser apenas um problema individual. Passa a ser sintoma estrutural.

Em nome de parecer “republicano”, algumas lideranças acabam se tornando politicamente ausentes justamente no momento em que seus aliados mais precisam delas. E na política, ausência prolongada costuma ser interpretada como indiferença.
O Eleitor Percebe. O Militar Percebe. O Aliado, Principalmente.
O eleitor percebe.
Os militantes percebem.
Os aliados, principalmente, percebem.
E poucas coisas são mais dolorosas na política do que descobrir que o adversário ataca menos do que o próprio companheiro de caminhada.
No fim das contas, a entrevista de Geraldo Simões não fala apenas sobre Itabuna, sobre eleições municipais ou sobre disputas internas do PT. Ela fala sobre confiança política. Sobre lealdade. Sobre pertencimento. Sobre o peso destrutivo de apoios tímidos em tempos que exigem coragem.
Porque, às vezes, um inimigo declarado causa menos dano do que um aliado que nunca decide verdadeiramente entrar na batalha.
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Padre Carlos — Teólogo, cronista político e editor de Política e Resenha
Vitória da Conquista, Bahia | Brasil




