Igreja & Sociedade · Encíclica Papal
“Um Marco da Dignidade Humana”:

Dom Zanoni sobre o Pedido de Perdão pela Escravidão na Nova Encíclica
Arcebispo de Feira de Santana destaca a encíclica papal como documento que conecta o passado da escravidão africana às novas formas de servidão na era da inteligência artificial.
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Bahia, Brasil
Dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo de Feira de Santana, na Bahia, definiu como um marco histórico da luta pela dignidade humana o pedido de desculpas pela escravidão contido na mais recente encíclica papal. Para o religioso, o documento representa um reconhecimento inédito e solene por parte da Igreja Católica de seu papel na legitimação de um dos crimes mais graves cometidos contra a humanidade.
A encíclica surge em um momento em que o debate sobre reparação histórica e equidade racial ganha força em fóruns internacionais, e Dom Zanoni vê na iniciativa do Papa um gesto de profunda coerência moral — ainda que tardio aos olhos de muitos.
“O protagonismo da nossa gente”: escravidão como questão central
Ao comentar a repercussão do documento entre comunidades negras e periféricas, o arcebispo sublinhou que o texto eclesial toca numa ferida histórica ainda aberta. Para ele, o pedido de perdão não é apenas simbólico — é o reconhecimento institucional de um sofrimento que moldou populações inteiras e cujos efeitos se perpetuam até hoje.

“Esse protagonismo da gente, da sua luta, e, sobretudo, nós estamos falando da dignidade humana.”
A fala do arcebispo ecoa uma compreensão que vai além do aspecto religioso: a encíclica é lida como um instrumento de memória coletiva e de reconhecimento político, especialmente relevante para os afrodescendentes que há séculos carregam os traumas da diáspora forçada.
Do passado colonial às escravidões digitais do presente
Um dos aspectos mais originais da leitura de Dom Zanoni é a ponte que ele constrói entre a escravidão histórica e as formas contemporâneas de servidão. O arcebispo destaca que a encíclica não se limita a um mea culpa retrospectivo: ela denuncia, com igual firmeza, o horizonte das escravidões modernas forjadas no ambiente digital e nos algoritmos da inteligência artificial.
Para Dom Zanoni, os mais pobres e os afrodescendentes continuam sendo as principais vítimas dessas novas formas de exploração — seja pela exclusão dos benefícios tecnológicos, seja pela exposição desregulada a sistemas que os invisibilizam ou discriminam sistematicamente.
Íntegra do Testemunho · Dom Zanoni
“E o Papa, justamente nesse momento, ele, refletindo sobre as escravidões modernas, atuais, sobretudo na era da informática, da inteligência artificial, ele traz esta dor que há pouco tempo a ONU disse que foi a pior atrocidade cometida à humanidade, que foi a escravidão do povo africano.”
“Alguns dizem que é muito tarde, mas em um momento oportuno, significativo, valioso, ele pede perdão porque a Igreja, na sua caminhada, na sua fragilidade, apoiou esse grande projeto que era a colonização, o desenvolvimento da civilização ocidental através desse instrumento tão ruim que foi a escravidão.”
O ser humano no centro: crítica à IA sem ética
Dom Zanoni enfatiza que a encíclica faz essa visita ao passado olhando para as escravidões do futuro — com a inteligência artificial sendo utilizada sem colocar o ser humano no centro de suas finalidades. Nessa leitura, o documento pontifício dialoga diretamente com os debates globais sobre governança tecnológica e os riscos de uma automação que concentra riqueza e exclui os mais vulneráveis.
A preocupação do arcebispo é que a história se repita sob novas roupagens: da mesma forma que a colonização foi justificada por discursos de progresso civilizatório, o avanço tecnológico descontrolado pode ser instrumentalizado para perpetuar desigualdades seculares, agora codificadas em dados e algoritmos.
A Organização das Nações Unidas classificou a escravidão do povo africano como a pior atrocidade já cometida contra a humanidade — referência que o próprio Papa incorporou ao texto da encíclica como fundamento moral do pedido de perdão.
A articulação entre memória histórica, justiça racial e ética tecnológica marca a encíclica como um documento singular no magistério contemporâneo — e a recepção de Dom Zanoni evidencia como ele ressoa de forma particular nas comunidades que mais sofreram, e ainda sofrem, os efeitos de estruturas históricas de opressão.
“Tarde, mas oportuno”: o peso simbólico do perdão institucional

A questão do timing é reconhecida pelo próprio arcebispo. Há vozes, inclusive dentro das comunidades diretamente afetadas, que questionam o valor de um pedido de desculpas feito séculos após os crimes. Dom Zanoni não ignora essa tensão, mas escolhe lê-la como sinal de que o gesto, precisamente por ser tardio, carrega um peso simbólico ainda maior.
Para o arcebispo baiano, o perdão institucional da Igreja abre caminho para conversas mais profundas sobre reparação, memória e o papel das instituições religiosas nos processos de reconciliação histórica. Não se trata de apagar o passado, mas de reconhecê-lo com honestidade — condição necessária para qualquer futuro mais justo.
Enquanto o debate sobre a encíclica continua a se desdobrar em dioceses, universidades e movimentos sociais ao redor do mundo, a voz de Dom Zanoni oferece um ângulo brasileiro e afro-diaspórico imprescindível para compreender o alcance histórico do documento.




