Política e Resenha

O Verdadeiro Resultado do Datafolha Não Está nas Urnas, Mas na Consciência do País

 

Padre Carlos

Os números do último Datafolha talvez revelem muito mais do que uma simples disputa eleitoral. Eles escancaram o retrato psicológico, moral e comunicacional de um país dividido entre fatos e narrativas, entre memória e ressentimento, entre democracia e manipulação digital.

Na corrida presidencial, Lula aparece nove pontos à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. No segundo, a vantagem cai para quatro pontos. E é justamente aí que mora o espanto. Porque depois das denúncias envolvendo o Banco Master e os supostos desvios milionários ligados ao entorno bolsonarista, muitos imaginavam que o desgaste seria devastador. Não foi. E isso nos obriga a encarar uma verdade desconfortável: o discurso moralista que durante anos serviu como arma contra a esquerda perdeu completamente a coerência.

Durante anos, o Brasil assistiu a uma perseguição política e midiática em torno de um tríplex que se transformou em símbolo nacional de corrupção. O país foi levado a acreditar que a ética pública dependia exclusivamente da destruição de Lula e do PT. Mas agora surge um escândalo envolvendo cifras gigantescas, suspeitas de desvios milionários e ausência de prestação de contas, e parte significativa da mesma opinião pública simplesmente relativiza. O que antes era tratado como intolerável, hoje vira detalhe secundário.

Isso revela que o problema nunca foi apenas corrupção. O problema era político. Era ideológico. O critério nunca foi moralidade absoluta, mas sim quem praticava o ato. A régua mudou conforme o lado.

Mas existe outro dado ainda mais intrigante: mesmo liderando, Lula enfrenta uma rejeição elevada. E isso levanta uma pergunta inevitável: rejeição baseada em quê?

Porque quando olhamos os indicadores econômicos e sociais, o cenário é muito diferente daquele herdado após o último governo Bolsonaro. O Brasil voltou ao mapa internacional. O desemprego caiu. O país saiu novamente do mapa da fome. Houve recordes no Plano Safra. A bolsa registrou resultados positivos. O dólar perdeu força. A reforma tributária finalmente saiu do papel depois de décadas de paralisia. A Polícia Federal voltou a atuar com autonomia no combate ao crime ambiental e financeiro. O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou força. O governo retomou programas sociais, ampliou investimentos e recolocou o Estado como indutor econômico.

Enquanto isso, a memória recente do bolsonarismo inclui isolamento diplomático, ataques às instituições, motociatas custeadas com dinheiro público, negacionismo durante a pandemia, destruição ambiental acelerada e uma entrega quase total do orçamento ao Centrão — justamente o ambiente político onde explodiram escândalos como os do INSS e do Banco Master.

Então por que, mesmo diante desse contraste, existe ainda uma parcela tão significativa da população resistente aos números e aos fatos?

A resposta talvez esteja numa única palavra: comunicação.

E aqui é preciso maturidade intelectual. Não se trata de repetir o discurso fácil de que “o governo não sabe se comunicar”. O problema é mais profundo. Um governo democrático, limitado pela Constituição, pela legalidade e pela ética pública, não pode operar como milícia digital. Não pode fabricar mentiras em massa. Não pode usar redes clandestinas de desinformação como instrumento político permanente.

Do outro lado, porém, existe uma engrenagem extremamente eficiente baseada justamente na manipulação emocional, no sensacionalismo e na mentira industrializada. Perfis especializados em viralização de ódio atuam vinte e quatro horas por dia fabricando inimigos, distorcendo fatos e criando realidades paralelas. Não é coincidência que setores ligados ao bolsonarismo reajam com tanta violência sempre que se fala em regulamentação das redes sociais. Porque a ausência de regras virou combustível político.

A democracia moderna entrou numa guerra assimétrica. De um lado, instituições tentando operar dentro da lei. Do outro, algoritmos impulsionando indignação, fake news e radicalização como modelo de negócio.

E no meio desse campo minado surge um ator decisivo: o jornalismo independente.

É ele que muitas vezes consegue furar o bloqueio das grandes estruturas de poder. É ele que publica denúncias que parte da mídia tradicional hesita em aprofundar. Em muitos momentos, os grandes conglomerados de comunicação parecem mais preocupados com “humor do mercado” do que com o impacto social dos fatos. A informação virou commodity financeira. O jornalismo independente, ao contrário, virou trincheira democrática.

Não por acaso, muitas fontes hoje preferem procurar canais alternativos em vez de bater na porta dos velhos grupos de mídia. Existe medo de silêncio. Medo de blindagem. Medo de acordos invisíveis entre política, mercado e comunicação.

O Datafolha, portanto, talvez revele mais do que intenção de voto. Ele mostra um país vivendo uma batalha permanente entre realidade concreta e percepção fabricada. Mostra uma sociedade emocionalmente sitiada por algoritmos que lucram com a raiva. Mostra uma democracia onde os fatos já não bastam sozinhos.

E talvez seja justamente aí que esteja o maior desafio do Brasil contemporâneo: recuperar a capacidade coletiva de discernir.

Porque sem senso crítico, sem educação midiática e sem responsabilidade digital, nenhuma democracia sobrevive intacta. O eleitor deixa de ser cidadão e passa a ser apenas alvo. Um alvo emocional manipulado por máquinas de engajamento político.

No fim das contas, o verdadeiro resultado do Datafolha não está apenas nos números. Está no espelho que ele coloca diante do país.