
Padre Carlos
A notícia já não causa espanto. E talvez esse seja o retrato mais cruel da tragédia baiana. Mais uma pessoa retirada de dentro de casa e executada em Jequié. Mais um corpo tombado diante de uma sociedade anestesiada pelo medo. Mais uma família destruída enquanto o Estado parece assistir tudo de longe, como se a barbárie tivesse se tornado paisagem urbana.
Em qualquer democracia minimamente funcional, a casa do cidadão deveria ser o último refúgio de segurança. Quando homens armados entram numa residência, arrastam alguém para fora e executam diante da comunidade, não estamos mais falando apenas de criminalidade. Estamos falando do colapso da autoridade estatal.
Jequié, conhecida outrora como uma cidade de comércio forte, polo regional e orgulho do interior baiano, passou a carregar outro título: o de uma das cidades mais violentas do Brasil. O que antes parecia estatística virou cotidiano. A morte deixou de ser exceção e passou a ser método.
O mais assustador não é apenas a violência em si. O mais assustador é a sensação de abandono. O cidadão comum já não acredita plenamente que será protegido. Comerciantes fecham as portas mais cedo. Famílias vivem atrás de grades, cercas elétricas e câmeras. Jovens crescem ouvindo rajadas de tiros como se fossem parte natural da noite. E mães aprendem a rezar cada vez que um filho sai de casa.
Quando o tráfico decide quem vive e quem morre, o poder mudou de mãos.
É duro escrever isso, mas a verdade precisa ser dita sem maquiagem ideológica: o governo da Bahia perdeu a guerra para o tráfico em diversas regiões do estado. Não se trata apenas de Jequié. O problema se espalha por Salvador, Feira de Santana, Camaçari, Simões Filho e tantas outras cidades onde facções disputam território como se fossem estados paralelos.
Enquanto isso, a política insiste em discursos burocráticos, coletivas frias e números que não consolam ninguém. A população não quer estatística. Quer voltar viva para casa.
A grande tragédia brasileira é que o crime organizado evoluiu, se armou, se profissionalizou e ocupou espaços onde o Estado desapareceu. O tráfico hoje possui inteligência, financiamento, comunicação e domínio territorial. Em muitos bairros, ele impõe toque de recolher, julga, pune e executa. É um poder criminoso que desafia diretamente as instituições.
E o cidadão? Esse ficou sozinho entre o medo e o silêncio.
Existe também uma dimensão social que não pode ser ignorada. Jequié não nasceu violenta. Nenhuma cidade nasce condenada ao caos. O avanço do crime se alimenta da ausência histórica de oportunidades, do abandono da juventude, da precarização da educação e da falência de políticas públicas permanentes. Onde o Estado chega apenas com viatura e sirene, o tráfico chega oferecendo pertencimento, dinheiro rápido e falsa proteção.
Mas seria ingenuidade romantizar o crime organizado como fruto exclusivo da desigualdade. O tráfico hoje é uma máquina de poder e morte. E precisa ser enfrentado com inteligência, presença territorial do Estado, fortalecimento das polícias, investigação financeira das facções e recuperação urgente da autoridade pública.
Porque sem autoridade legítima não existe democracia. Existe medo.
O drama de Jequié não pertence apenas aos jequieenses. É um alerta para toda a Bahia. Uma sociedade não morre apenas quando seus cidadãos são assassinados. Ela começa a morrer quando perde a esperança de que alguém ainda seja capaz de protegê-la.
E talvez seja exatamente isso que mais assusta nas imagens e notícias que chegam de Jequié: a impressão de que o cidadão comum já começa a acreditar que está por conta própria.
Quando uma pessoa é retirada de dentro da própria casa para ser executada, não foi apenas uma vida que o crime levou.
Foi também um pedaço da autoridade do Estado.




