Política e Resenha

ARTIGO — Nós Sonhávamos em Mudar o Mundo

 

Padre Carlos

 

Às vezes eu olho para a juventude de hoje e sinto um aperto silencioso no peito.

Não digo isso com arrogância de velho. Nem com aquele discurso fácil de que “no meu tempo era melhor”. Toda geração tem suas dores, suas ilusões e suas contradições. Mas quem viveu os anos 60 e 70 carrega dentro de si uma memória que ainda queima como brasa escondida debaixo da cinza.

Nós acreditávamos que era possível mudar o mundo.

Pode parecer ingênuo hoje. Talvez fosse mesmo. Mas era uma ingenuidade bonita. Havia algo de profundamente humano naquela geração. A gente discutia política nas praças, nas universidades, nos bares enfumaçados e até nas portas das igrejas. Falávamos de revolução, justiça social, reforma agrária, igualdade e liberdade como quem fala de pão. Não porque fosse moda, mas porque parecia impossível viver num mundo tão desigual sem sentir indignação.

A ditadura pesava sobre nossas costas. Muitos companheiros desapareceram. Outros foram presos, torturados, exilados. E mesmo assim existia esperança. Talvez justamente porque havia repressão, a vida ganhava mais sentido. A luta coletiva nos fazia sentir vivos.

Hoje vejo uma juventude diferente.

Não é culpa apenas deles. O mundo mudou. O capitalismo venceu uma guerra silenciosa e conseguiu algo que nem os tanques militares haviam conseguido: colonizar a mente das pessoas.

Antigamente o jovem queria transformar a sociedade.

Agora ele é treinado para transformar a si mesmo em mercadoria.

Tudo virou mercado. O corpo virou mercado. A opinião virou mercado. A fé virou mercado. A tristeza virou conteúdo. Até a rebeldia foi absorvida pelo sistema e transformada em produto de consumo.

Walter Benjamin tinha razão quando dizia que o capitalismo virou religião. Só que é uma religião sem misericórdia. Seu deus exige produtividade permanente. Seu mandamento principal é competir. Seu pecado mortal é fracassar.

E o pior é que muita gente nem percebe mais isso.

A juventude dos anos 60 sonhava em derrubar guerras. A juventude atual cresce vendo guerras ao vivo pelo celular enquanto o algoritmo entrega propaganda entre um bombardeio e outro. Gaza sangra. Crianças morrem. A Ucrânia arde. E o mercado continua funcionando normalmente, como uma máquina fria incapaz de sentir compaixão.

Isso me assusta profundamente.

Porque o capitalismo moderno não destrói apenas economias ou direitos sociais. Ele destrói laços humanos. Faz as pessoas acreditarem que estão sozinhas no mundo. Que sucesso é individual. Que solidariedade é fraqueza. Que felicidade pode ser comprada.

Mas não pode.

Eu vivi o suficiente para aprender isso.

Os momentos mais importantes da vida nunca nasceram do consumo. Nasceram dos encontros humanos. Das amizades feitas na luta. Das conversas longas atravessando madrugadas. Dos abraços em tempos difíceis. Da coragem coletiva diante do medo.

Talvez a grande tragédia de hoje seja exatamente esta: estamos formando uma geração conectada digitalmente e abandonada emocionalmente.

E ainda assim, apesar de tudo, eu não perdi completamente a esperança.

A história humana nunca anda em linha reta. Toda época de egoísmo extremo acaba produzindo gente disposta a recuperar o sentido da comunidade. Talvez essa juventude cansada de ansiedade, solidão e competição descubra cedo ou tarde que nenhuma tecnologia substitui o afeto humano.

Porque no final das contas, meu amigo, a vida continua sendo uma pergunta simples:

De que vale ganhar o mundo inteiro se perdermos a capacidade de sentir o outro?

Talvez seja essa a revolução que ainda nos resta fazer.