

Por Padre Carlos
A história é implacável com os povos que delegam a defesa de seu quintal ao arbítrio do vizinho mais poderoso. O recente anúncio do Departamento de Estado dos Estados Unidos — sob a batuta de Marco Rubio e chancelado por Donald Trump —, que classifica o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como “Organizações Terroristas Globais Especialmente Designadas” e futuras “Organizações Terroristas Estrangeiras”, não é uma vitória da justiça. É, em sua essência mais nua e crua, um desastre diplomático e uma afronta sem precedentes à nossa soberania nacional.
O que assistimos nos últimos dias cruza a linha tênue que separa a oposição política da pura e simples subserviência ao estrangeiro. Ver um senador da República ir a Washington jactar-se de ter “pedido” tal medida, posando para fotos enquanto entrega as chaves da nossa autonomia jurídica e territorial, é um espetáculo deprimente. É a institucionalização do complexo de vira-lata, elevado ao nível de perigo de Estado.
Para compreender a gravidade do cenário, é preciso despir o discurso oficial do moralismo barato do combate ao crime. O crime organizado no Brasil é uma chaga terrível, uma tragédia interna que cobra vidas diariamente e que deve ser asfixiada pelas nossas instituições, pelas nossas forças policiais e pelo nosso Judiciário. Ao permitir — e pior, celebrar — que os EUA carimbem essas facções como “terroristas”, o Brasil abre as portas para o princípio da extraterritorialidade americana.
Na prática, isso significa que Washington se autoconcede o direito de:
Decidir unilateralmente: Planejar ações armadas, financeiras e de inteligência a partir dos EUA para serem executadas em solo brasileiro, sem a necessidade de compartilhamento de informações ou aval das autoridades locais.
Contaminar o Sistema Financeiro: Instituições bancárias e empresas legítimas brasileiras, baseadas na Faria Lima ou em qualquer parte do país, correm o risco de sofrer sanções fulminantes e bloqueios internacionais sob a mera suspeita de “facilitar” transações de entes agora classificados como terroristas.
Criminalizar por Osmose: Cidadãos comuns e pequenos comerciantes que vivem em áreas infelizmente controladas pelo tráfico, e que são obrigados a pagar taxas locais de subsistência, podem ser enquadrados internacionalmente como financiadores do terrorismo global, tendo o direito de ir e vir severamente cerceado.
O crime organizado busca o lucro e o domínio territorial; o terrorismo busca a derrubada de regimes políticos. Confundir os dois conceitos não é um erro técnico dos EUA; é uma estratégia geopolítica para legitimar intervenções.
Os defensores dessa medida vendem a ilusão de que o “Tio Sam” virá salvar o Brasil do narcotráfico. Esquecem-se, por miopia ou má-fé, dos precedentes históricos. O exemplo recente do México é pedagógico e assustador: agentes da CIA operando disfarçados de turistas, laboratórios estourados sem o conhecimento do governo local e uma tensão diplomática permanente que corrói as instituições nacionais. A Colômbia dos anos 80 e 90 não viveu uma parceria de iguais, mas sim uma tutela militarizada que custou caro à sua independência.
A diferença crucial é que naqueles casos houve, bem ou mal, tratados bilaterais. No caso brasileiro atual, o governo federal foi pego de surpresa. O Itamaraty foi atropelado por uma articulação parajurídica, costurada nos bastidores de Washington por uma ala política brasileira que prefere ver o território nacional sob o radar do Pentágono a focar no fortalecimento da nossa própria inteligência de segurança.
Ao asfixiar o compartilhamento de informações policiais — já que agências como o FBI e a CIA agora tratarão os dados sob o manto do contraterrorismo sigiloso —, os EUA não estão ajudando o Brasil a combater o crime; estão blindando a si mesmos e isolando o nosso país.
Um país que não controla suas fronteiras financeiras, que aceita que governos estrangeiros decidam quem é terrorista em seu próprio território e que aplaude a perda do monopólio da força legítima não é uma nação soberana; é um protetorado. O combate ao PCC e ao Comando Vermelho exige coragem política interna, reforma do sistema prisional, inteligência financeira doméstica e união institucional. Chamar o exército de outra bandeira para resolver nossas mazelas não é patriotismo. É a mais triste e perigosa das capitulações.
Um país que abre mão de sua autonomia para entregar a potências estrangeiras o controle indireto de sua segurança nacional corre o risco de perder muito mais do que o combate ao crime: perde a autoridade sobre o próprio destino. O enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho exige firmeza institucional, inteligência estratégica, investimentos em segurança pública e fortalecimento do Estado brasileiro — não a terceirização da soberania. A verdadeira independência de uma nação não se mede apenas por suas fronteiras geográficas, mas pela capacidade de decidir, com suas próprias leis e instituições, os caminhos de sua justiça e de sua segurança. Quando a política troca soberania por tutela, o preço pago pelas futuras gerações pode ser alto demais.




