Política e Resenha

O MÉDICO QUE ESCOLHEU CUIDAR DAS PESSOAS E NÃO APENAS DAS DOENÇAS

 

Padre Carlos

A morte de um médico nunca representa apenas a perda de um profissional. Quando parte alguém que dedicou décadas de sua existência ao cuidado humano, ao alívio da dor e à escuta dos que sofrem, a cidade inteira perde um pouco de sua memória afetiva. É assim que Vitória da Conquista recebe a notícia do falecimento do Dr. Péricles Norberto Matos.

Sua partida era esperada diante da gravidade da doença que enfrentava, mas nem por isso a notícia deixa de provocar tristeza. Há pessoas cuja presença se torna tão constante na vida de uma comunidade que imaginamos, de forma inconsciente, que estarão sempre ali. Dr. Péricles era uma dessas pessoas.

Médico homeopata respeitado, ele atravessou gerações atendendo pacientes que encontravam em seu consultório algo cada vez mais raro nos dias atuais: tempo para ouvir. Em uma época em que a medicina muitas vezes é pressionada pela velocidade dos diagnósticos e pela lógica dos números, ele preservava uma qualidade fundamental da arte médica: a capacidade de enxergar o ser humano por inteiro.

Filho do saudoso Jadiel Matos, ex-prefeito que marcou sua época pela dedicação à vida pública, Dr. Péricles herdou valores que ultrapassam o campo profissional. Carregava consigo o senso de compromisso com a comunidade, o respeito pelas pessoas e o entendimento de que servir ao próximo é uma das formas mais nobres de construir uma existência.

Mas seria injusto lembrar apenas do médico tradicional. Dr. Péricles também era um homem voltado para o futuro. Como presidente do conselho do hospital, defendia a modernização da saúde e compreendia a importância da inovação tecnológica. Falava com entusiasmo sobre a robótica aplicada à medicina, sobre os avanços cirúrgicos e sobre o potencial transformador das novas tecnologias.

O mais interessante, porém, era sua capacidade de unir dois mundos aparentemente opostos. De um lado, a medicina humanizada, baseada na escuta e na relação de confiança entre médico e paciente. De outro, a tecnologia de ponta, a inteligência das máquinas e a precisão dos novos equipamentos. Para ele, não havia contradição. A saúde precisava dos dois elementos. Precisava da ciência mais avançada e também do calor humano que nenhuma máquina será capaz de substituir.

Talvez esse seja um dos legados mais importantes que deixa para as novas gerações de profissionais da saúde. O futuro não pertence apenas aos equipamentos sofisticados, nem apenas às técnicas inovadoras. O futuro pertence à capacidade de combinar conhecimento, tecnologia e humanidade.

A morte tem o hábito cruel de interromper trajetórias. Mas há vidas que continuam falando mesmo depois do silêncio. Permanecem nas lembranças dos pacientes, nas histórias das famílias, nos corredores dos hospitais e nas marcas invisíveis deixadas por quem dedicou sua existência a cuidar dos outros.

Vitória da Conquista perde hoje um médico. A Bahia perde um defensor da saúde humanizada. Seus familiares perdem um ente querido. Mas sua história permanece.

Porque existem pessoas que passam pela vida exercendo uma profissão. E existem aquelas que transformam a profissão em missão.

Dr. Péricles Matos pertenceu a essa segunda categoria.

Que Deus conforte seus familiares e amigos. E que sua trajetória de dedicação, conhecimento, inovação e humanidade permaneça viva na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.