
Padre Carlos
Na próxima terça-feira, Vitória da Conquista viverá um momento histórico. Não pela chegada de uma nova aeronave, nem pela ampliação da malha aérea, nem por um investimento que projete a cidade para o futuro. O acontecimento histórico será outro: uma das maiores cidades da Bahia, polo regional de saúde, educação, comércio e serviços para mais de dois milhões de pessoas, receberá com pompa e circunstância um avião de apenas nove lugares.
Confesso que a cena parece saída de uma comédia política brasileira.
Uma comitiva de empresários decidiu ir ao aeroporto para recepcionar a aeronave da Azul Linhas Aéreas. A iniciativa tem caráter simbólico e de protesto. E está correta. Afinal, quando uma cidade do porte de Vitória da Conquista troca uma aeronave de 72 passageiros por outra que transporta apenas nove, estamos diante de um símbolo. E não é um símbolo de progresso.
Mas talvez a organização do evento esteja esquecendo de alguns convidados importantes.
Seria fundamental reservar um lugar de honra para os deputados estaduais e federais que dizem representar Vitória da Conquista e o sudoeste baiano. Sim, todos eles deveriam estar presentes na pista, perfilados, sorridentes para as fotografias, observando de perto a pequena aeronave que aterrissará no Aeroporto Glauber Rocha.
Afinal, aquele avião não transporta apenas nove passageiros.
Ele transporta também o peso da nossa representação política.
Cada assento vazio é uma metáfora perfeita da influência que perdemos em Salvador e em Brasília.
Durante décadas, Vitória da Conquista construiu uma posição estratégica no interior da Bahia. Tornou-se referência em saúde, educação superior, comércio e prestação de serviços. Cresceu economicamente e consolidou sua liderança regional.
Mas, curiosamente, quanto mais a cidade cresceu, menor parece ter ficado sua capacidade de pressão política.
Quando uma empresa aérea reduz drasticamente sua oferta de assentos para uma cidade deste porte, não estamos diante apenas de uma decisão empresarial. Estamos diante de um sinal de fragilidade institucional.
Onde estão as vozes que deveriam defender os interesses da região?
Onde estão as lideranças capazes de sentar à mesa com o Governo do Estado, com a Agência Nacional de Aviação Civil e com as companhias aéreas para discutir soluções?
Onde estão os representantes que transformam votos em influência política?
A verdade é que Vitória da Conquista parece ter se especializado em produzir cabos eleitorais para projetos alheios, enquanto perde capacidade de defender seus próprios interesses.
A cidade vota. Os políticos agradecem. As eleições passam. E depois ficamos discutindo a chegada de um avião com capacidade semelhante à de uma van executiva.
O problema não é a aeronave.
O problema é o que ela representa.
Ela é o retrato de uma cidade que, apesar de sua importância econômica, tem dificuldade para transformar sua força eleitoral em resultados concretos.
Enquanto outras regiões conseguem ampliar aeroportos, atrair investimentos e fortalecer suas conexões, Conquista comemora o que deveria estar lamentando.
Talvez a recepção planejada pelos empresários tenha mesmo um caráter pedagógico.
Que os deputados compareçam.
Que os prefeitos da região compareçam.
Que as lideranças políticas compareçam.
Que todos olhem para aquela aeronave estacionada na pista e façam uma reflexão sincera.
Porque o tamanho do avião não é o problema.
O problema é que ele acabou se transformando numa dolorosa medida do tamanho da influência política que a região possui hoje.
E isso deveria preocupar muito mais do que a quantidade de assentos.
Vitória da Conquista precisa acordar.
Precisa voltar a cobrar resultados, presença e representatividade.
Precisa entender que cidades não perdem espaço de uma hora para outra. Elas perdem espaço lentamente, quando se acostumam a aceitar retrocessos como se fossem inevitáveis.
Na terça-feira, o avião vai pousar.
A grande questão é saber se a consciência política da cidade também vai aterrissar na realidade.
Ou se continuaremos assistindo, da sala de embarque, ao embarque dos nossos interesses para outros destinos.




