Política e Resenha

ENTRE O EMBRANQUECIMENTO DOS TERREIROS E O EMPRETECIMENTO DAS IGREJAS: A NOVA GEOGRAFIA DA FÉ BRASILEIRA

 

 

Padre Carlos

 

Quando Vinicius de Moraes afirmou certa vez que era “o branco mais preto do Brasil”, talvez não imaginasse que aquela frase atravessaria décadas como uma síntese poética de um dos maiores encontros culturais da história brasileira. Poeta, diplomata, compositor e profundo admirador da cultura afro-brasileira, Vinicius mergulhou na espiritualidade do candomblé, tornou-se filho de Xangô e ajudou a eternizar, ao lado de Baden Powell, uma das obras mais importantes da música nacional: os Afro-Sambas.

Naquele Brasil dos anos 1960, a aproximação de intelectuais, artistas e músicos com as tradições africanas representava um gesto de valorização cultural. O que era marginalizado passava a ser reconhecido como patrimônio da identidade nacional. A Bahia, os terreiros, os atabaques e os orixás deixavam de ser vistos apenas pelos olhos do preconceito para ganharem espaço na arte, na literatura e na música.

Mas o Brasil mudou. E as religiões também.

Nos últimos anos, um fenômeno silencioso vem transformando profundamente o cenário religioso brasileiro. Trata-se do que estudiosos chamam de embranquecimento dos terreiros e, simultaneamente, do empretecimento das igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais.

O tema é delicado porque não se resume à questão racial. O problema não está na presença de pessoas brancas nos terreiros. Afinal, as religiões de matriz africana sempre acolheram indivíduos de todas as origens. O que está em debate é uma mudança estrutural, econômica e cultural que altera o perfil social desses espaços.

Quando vi a notícia da visita da atriz Alessandra Negrini a um terreiro em Salvador, compartilhada nas redes sociais pelo pai de santo Paulo de Oliveira, percebi que aquela imagem representava algo muito maior do que uma simples manifestação de fé. Devota de Iansã, a atriz aparecia vestida com as roupas tradicionais da religião, recebendo elogios e admiração de milhares de seguidores.

Não há nada de errado nisso. Pelo contrário. Toda demonstração de respeito às tradições afro-brasileiras deve ser celebrada. Contudo, aquela cena ajuda a compreender uma transformação em curso.

Os terreiros passaram a despertar crescente interesse das classes médias urbanas, de artistas, intelectuais, influenciadores digitais e setores mais escolarizados da sociedade. Enquanto isso, muitos dos negros pobres que historicamente sustentaram essas tradições estão migrando para igrejas pentecostais.

É um paradoxo sociológico fascinante.

Durante décadas, a narrativa predominante apontava as igrejas evangélicas como espaços conservadores e pouco receptivos à diversidade. Entretanto, a realidade das periferias brasileiras está mostrando um quadro mais complexo.

Hoje, talvez a religião mais negra do Brasil não seja o candomblé nem a umbanda, mas o pentecostalismo.

Basta observar quem ocupa os bancos dos templos nas periferias urbanas. São, em sua maioria, mulheres negras, mães solo, trabalhadoras, responsáveis pelo sustento da família, cuidadoras de idosos e principais lideranças afetivas de seus lares.

Para essas mulheres, a igreja oferece muito mais do que uma experiência espiritual. Ela fornece rede de apoio, acolhimento emocional, proteção social, sentimento de pertencimento e, muitas vezes, ajuda concreta diante das dificuldades da vida.

A pandemia revelou isso de forma dramática. Em inúmeros bairros populares, as igrejas foram espaços de solidariedade, distribuição de alimentos, escuta e assistência quando muitas instituições falharam.

Ao mesmo tempo, as próprias igrejas passaram por profundas mudanças culturais.

A imagem de um pentecostalismo rígido e fechado já não corresponde inteiramente à realidade. O que antes era marcado por inúmeras proibições foi sendo flexibilizado. Mulheres passaram a ocupar novos espaços, os códigos de vestimenta se tornaram menos rigorosos e a diversidade interna cresceu de maneira surpreendente.

O resultado é que o Brasil religioso está redesenhando suas fronteiras.

Enquanto os terreiros ganham visibilidade nos centros urbanos, nas universidades e nos círculos culturais, as igrejas ampliam sua presença nas periferias negras do país. Enquanto intelectuais discutem a valorização das religiões de matriz africana, milhões de brasileiros encontram no pentecostalismo respostas práticas para suas angústias cotidianas.

Essa movimentação cria um desafio enorme para qualquer debate sério sobre diversidade, inclusão e identidade racial no Brasil.

A velha lógica que associava automaticamente negritude ao candomblé e branquitude ao cristianismo já não explica a realidade contemporânea. O país tornou-se muito mais complexo.

Talvez estejamos assistindo ao surgimento de uma nova geografia da fé brasileira.

Uma geografia em que os terreiros se tornam cada vez mais diversos socialmente, enquanto as igrejas assumem um protagonismo crescente entre a população negra e periférica.

Isso não significa o desaparecimento das religiões afro-brasileiras. Muito menos a vitória de uma fé sobre outra. Significa apenas que a sociedade está em movimento e que as identidades religiosas seguem caminhos muitas vezes imprevisíveis.

Vinicius de Moraes enxergou, décadas atrás, a beleza da mistura que forma o Brasil. Talvez sua frase continue atual justamente porque o país permanece sendo um enorme laboratório de encontros, cruzamentos e reinvenções culturais.

O que muda agora é que as fronteiras da fé estão se deslocando diante dos nossos olhos. E compreender esse fenômeno será fundamental para entender não apenas o futuro das religiões brasileiras, mas também o futuro da própria sociedade.

Porque, no Brasil, a religião nunca é apenas religião. Ela é cultura, identidade, pertencimento, poder e esperança. E quando a fé muda de lugar, a sociedade inteira se transforma junto com ela.