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Narrativa, Poder e Névoa: as Três Máquinas que Disputam o Brasil

Política & Resenha · Análise Editorial

Narrativa, Poder e Névoa: as Três Máquinas que Disputam o Brasil

Por Padre Carlos  · Vitória da Conquista, Bahia

Há uma sabedoria popular que nos lembra como certas coisas resistem pouco ao tempo antes de virem à superfície: a riqueza escondida, o mal que corrói o corpo e o segredo do coração. Na arena política, porém, seria justo acrescentar uma quinta revelação inevitável: a engenharia oculta por trás de toda narrativa de poder. Por mais sofisticado que seja o artifício, a realidade insiste em cobrar seu preço — e as histórias construídas para durar costumam desmoronar quando menos se espera.

A recente decisão do presidente Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas provocou reações imediatas e intensas no Brasil. De um lado, setores do bolsonarismo celebraram a medida como uma grande vitória política. De outro, o campo lulista foi tomado por uma visível inquietação. Em poucos dias, uma única iniciativa internacional abalou narrativas que vinham sendo construídas há anos.

A movimentação expôs fragilidades de ambos os lados. No caso do bolsonarismo, revelou mais uma vez sua capacidade de transformar fatos complexos em instrumentos de mobilização política. No caso do lulismo, trouxe à tona contradições antigas e dificuldades para responder a temas que foram tratados com excessiva cautela ou simplesmente ignorados ao longo dos anos.

Mas o fenômeno mais interessante talvez não esteja nos fatos em si, e sim na disputa de marketing político que eles desencadearam.

Três Vértices, Uma Mesma Lógica

De um lado está a poderosa máquina de comunicação de Trump, especializada em criar fatos políticos de grande impacto simbólico. De outro, o marketing bolsonarista, que há anos reproduz e adapta métodos semelhantes à realidade brasileira. No terceiro vértice surge o marketing lulista, marcado por uma sofisticada capacidade de reposicionamento narrativo e pela habilidade histórica de transformar adversidades em capital político.

São três escolas distintas na aparência, mas que compartilham uma mesma compreensão da política moderna: a batalha pela percepção pública muitas vezes vale mais do que a disputa pelos fatos.

Quem sairá vencedor desse confronto ainda é impossível prever. Entretanto, já é possível identificar o principal risco: que o grande derrotado seja novamente o Brasil, aprisionado em uma polarização cada vez mais intensa e incapaz de produzir soluções concretas para seus problemas reais.

A Armadilha e o Terreno Preparado

É inegável que a articulação entre Trump e o bolsonarismo colocou o governo Lula numa posição defensiva. Contudo, isso não significa necessariamente um xeque-mate. O resultado dependerá da forma como o governo conduzirá os próximos movimentos.

A estratégia adversária é relativamente clara: associar o discurso da soberania nacional ao risco de uma suposta complacência com o crime organizado. Trata-se de uma armadilha política sofisticada porque encontra terreno fértil em um país onde a insegurança pública ocupa posição central nas preocupações da população.

Esse terreno foi preparado durante anos. O tratamento frequentemente ambíguo dado à questão da segurança pública por setores da esquerda abriu espaço para interpretações e acusações que, embora muitas vezes exageradas, encontraram receptividade em parte do eleitorado.

Além disso, o lulismo falhou em enfrentar de maneira contundente determinadas narrativas que foram sendo construídas ao longo do tempo. Acusações sem base sólida acabaram sendo repetidas tantas vezes que passaram a fazer parte do imaginário político de muitos brasileiros.

O Jogo de Soma Negativa

Nesse cenário, tanto Lula quanto Bolsonaro precisam agir com extrema cautela. A teoria dos jogos oferece uma imagem interessante para compreender o momento atual. Existe a possibilidade de que ambos transformem essa disputa em um chamado “jogo de soma negativa”.

Nessa modalidade de confronto, ninguém vence de fato. As perdas coletivas tornam-se maiores do que os ganhos individuais. Ao final da disputa, todos os participantes encontram-se em situação pior do que estavam no início.

— Análise segundo a Teoria dos Jogos aplicada ao cenário político brasileiro

Talvez por isso o caminho mais prudente para o governo seja evitar reações impulsivas. O conceito de soberania nacional, embora importante, nem sempre encontra tradução simples para o cidadão comum. Quando transformado em disputa retórica excessivamente abstrata, corre o risco de perder eficácia política.

Transformar Crise em Oportunidade

Por outro lado, também seria um erro ignorar completamente o debate. Uma alternativa mais inteligente poderia ser transformar a crise em oportunidade. Por que não propor mecanismos concretos de cooperação internacional no combate ao narcotráfico, preservando integralmente a autoridade das instituições brasileiras?

O Porto de Santos, por exemplo, tornou-se uma das principais rotas de escoamento da cocaína destinada ao mercado europeu. A ampliação de parcerias tecnológicas e operacionais com países aliados poderia fortalecer o combate ao crime sem abrir mão da autonomia nacional.

Já o bolsonarismo também tem razões para agir com prudência. A classificação das facções como organizações terroristas produz forte impacto simbólico e eleitoral, mas seus efeitos práticos sobre a segurança pública não serão imediatos.

Mais do que isso, determinadas medidas podem gerar consequências econômicas, diplomáticas e jurídicas de longo prazo. Caso os custos dessas decisões acabem recaindo sobre a população, a mesma opinião pública que hoje aplaude poderá amanhã cobrar uma fatura política elevada.

Quando o Marketing Ocupa o Lugar da Realidade

No final das contas, o que estamos assistindo não é apenas uma disputa entre governos, partidos ou lideranças. Trata-se do encontro de três grandes máquinas de comunicação política, cada uma tentando impor sua narrativa sobre a realidade.

Trump, Bolsonaro e Lula operam dentro de lógicas distintas, mas compartilham uma característica fundamental: todos compreendem o poder da construção simbólica na política contemporânea.

O perigo surge quando o marketing deixa de ser ferramenta e passa a ocupar o lugar da própria realidade.

Se isso acontecer, o Brasil corre o risco de entrar novamente em uma zona de turbulência onde ninguém realmente ganha. Um espaço político semelhante a um Triângulo das Bermudas, no qual desaparecem o bom senso, a racionalidade e a capacidade de construir consensos mínimos para enfrentar os desafios nacionais.

E, como tantas vezes já ocorreu em nossa história, a conta acabará sendo paga pela sociedade.

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