Política e Resenha

JUSTIÇA E MISERICÓRDIA: O CAMINHO QUE VAI DO TRIBUNAL AO ABRAÇO

 

 

Por Padre Carlos

Existe uma cena silenciosa que atravessa os séculos e ajuda a compreender um dos maiores mistérios da fé.

Uma criança assustada corre para junto da mãe.

Não porque o pai seja mau.

Não porque o pai não ame.

Mas porque, no imaginário infantil, a mãe representa o abrigo imediato, o colo seguro, a ternura sem condições. Quando a tempestade chega, é na barra do vestido da mãe que o filho procura refúgio. Ali ele acredita estar protegido de todos os perigos do mundo.

Essa imagem simples talvez seja uma das mais belas metáforas para entendermos a diferença entre justiça e misericórdia.

Não a diferença que separa.

Mas a diferença que completa.

A justiça é o eixo que sustenta o universo moral. A misericórdia é o coração que o faz pulsar.

No Antigo Testamento, o povo de Israel vivia cercado por guerras, invasões, disputas territoriais e sociedades onde a vingança frequentemente não conhecia limites. Nesse contexto surge a famosa Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”.

Muitos a interpretam como um símbolo de brutalidade. Na verdade, para sua época, representava um avanço civilizatório. Ela não autorizava a vingança; ela a limitava. Impedia que a perda de um olho fosse respondida com a morte de uma família inteira.

Era a justiça tentando colocar freios na violência humana.

Aquela sociedade precisava aprender que existe consequência para os atos. Precisava compreender que a liberdade não pode caminhar divorciada da responsabilidade.

Por isso Deus é frequentemente apresentado como juiz.

Um Deus que corrige.

Um Deus que exige fidelidade.

Um Deus que castiga quando o povo abandona a aliança.

Mas é preciso cuidado.

Mesmo no Antigo Testamento, a misericórdia já estava presente como um rio subterrâneo correndo sob as pedras da história.

Quando Deus perdoa Davi.

Quando poupa Nínive.

Quando acolhe o povo após inúmeras infidelidades.

Quando os profetas anunciam que Seu amor é maior que a ira.

A misericórdia já estava lá.

A humanidade é que ainda não possuía olhos suficientes para enxergá-la plenamente.

Então chega Jesus.

E com Ele algo extraordinário acontece.

O tribunal abre espaço para a mesa.

A sentença cede lugar ao abraço.

A pedra preparada para a condenação cai das mãos dos acusadores.

Cristo não destrói a justiça.

Cristo a leva à sua plenitude.

Porque a verdadeira justiça de Deus não consiste apenas em punir o erro.

Consiste em restaurar quem errou.

A mulher adúltera não é condenada.

Zaqueu não é rejeitado.

Pedro não é abandonado após a negação.

O filho pródigo não encontra uma porta fechada.

Todos descobrem que existe algo maior do que a culpa.

Existe a misericórdia.

E a misericórdia é talvez o atributo mais desconcertante de Deus.

A justiça pergunta:

— O que você merece?

A misericórdia pergunta:

— Do que você precisa para recomeçar?

A justiça pesa os atos.

A misericórdia contempla o coração.

A justiça vê a queda.

A misericórdia enxerga a possibilidade de levantar-se.

Por isso Jesus apresenta um rosto de Deus que escandalizou muita gente.

Um Deus que corre ao encontro do filho rebelde.

Um Deus que deixa noventa e nove ovelhas para procurar uma.

Um Deus que perdoa os próprios carrascos na cruz.

Um Deus que prefere salvar a perder.

Talvez seja por isso que tantas pessoas, mesmo adultas, continuam procurando Deus da mesma forma que uma criança procura a mãe.

Quando a alma está ferida.

Quando a consciência pesa.

Quando os fracassos se acumulam.

Quando o medo bate à porta.

O ser humano corre para o coração misericordioso de Deus como aquele menino que se esconde atrás da barra do vestido da mãe.

Não porque a justiça tenha desaparecido.

Mas porque sabe que a misericórdia tem a última palavra.

A maternidade talvez seja uma das imagens mais perfeitas da misericórdia divina.

A mãe conhece as falhas do filho antes de qualquer pessoa.

Vê seus erros.

Percebe suas fragilidades.

Conhece suas quedas.

Mas continua acreditando nele quando o mundo inteiro já desistiu.

Seu amor não ignora a verdade.

Mas ultrapassa a condenação.

É exatamente assim que Deus age.

A misericórdia não fecha os olhos para o pecado.

Ela abre os braços para o pecador.

A justiça sem misericórdia torna-se dureza.

A misericórdia sem justiça transforma-se em permissividade.

Mas quando ambas se encontram, nasce algo divino.

Nasce a redenção.

O grande anúncio do Evangelho não é que Deus deixou de ser justo.

O grande anúncio do Evangelho é que a justiça de Deus é tão perfeita que encontrou um caminho para salvar sem deixar de amar, corrigir sem humilhar, transformar sem destruir.

O Deus revelado por Cristo não abandonou o tribunal.

Ele simplesmente colocou uma porta de entrada chamada misericórdia.

E diante dessa porta, todos nós, em algum momento da vida, voltamos a ser crianças.

Crianças cansadas.

Crianças feridas.

Crianças arrependidas.

Que procuram abrigo.

E descobrem, com surpresa e gratidão, que Deus continua ali.

Não com uma pedra nas mãos.

Mas com os braços abertos.