
Padre Carlos
A política brasileira tem dessas ironias que desafiam a memória coletiva. Durante anos, o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes construiu sua trajetória apresentando-se como uma alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo. Fez críticas duríssimas ao PT e não poupou palavras contra Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Agora, ao justificar sua aproximação com lideranças do PL no Ceará, Ciro afirma que seus “bolsonaristas são honrados”.
A declaração provoca uma pergunta inevitável: onde estavam esses bolsonaristas honrados nos momentos mais dramáticos da história recente do Brasil?
Onde estavam quando o governo federal ignorava ofertas de vacinas enquanto a pandemia avançava e milhares de brasileiros perdiam a vida? Onde estavam quando famílias inteiras choravam seus mortos e especialistas alertavam para a urgência da imunização em massa?
Onde estavam quando Manaus se transformou em símbolo de uma tragédia humanitária, com pacientes morrendo por falta de oxigênio? Enquanto brasileiros agonizavam em hospitais, quantos desses “honrados” levantaram a voz para denunciar o absurdo?
Onde estavam quando instituições democráticas eram atacadas diariamente por discursos que colocavam em dúvida eleições, tribunais e a própria Constituição? Onde estavam quando o país assistia a uma escalada de tensões que culminaria em episódios que envergonharam a democracia brasileira?
Onde estavam quando a Amazônia queimava e o mundo inteiro apontava para o aumento do desmatamento e das queimadas? Onde estavam quando a imagem internacional do Brasil sofria um desgaste sem precedentes?
São perguntas legítimas. E são perguntas que merecem respostas.
É claro que ninguém pode ser responsabilizado individualmente por todos os erros de um governo apenas por compartilhar uma posição política. Generalizações costumam ser injustas. Entretanto, quando uma liderança política resolve fazer uma defesa pública tão enfática de um grupo identificado com um projeto político específico, torna-se inevitável analisar o histórico desse projeto.
O problema não está em Ciro Gomes buscar alianças. A política é feita de composições, acordos e entendimentos. O próprio sistema democrático exige diálogo entre diferentes correntes. O problema está em tentar reescrever a história recente como se as profundas divergências de ontem fossem apenas detalhes sem importância.
A verdade é que a aproximação entre Ciro Gomes e setores do bolsonarismo não nasce de uma afinidade ideológica repentina. Ela surge de uma estratégia eleitoral para enfrentar o PT no Ceará. Trata-se de uma movimentação pragmática, compreensível do ponto de vista político, mas que exige honestidade intelectual.
O eleitor brasileiro já está cansado de discursos que mudam conforme a conveniência do momento. Quando adversários históricos se transformam em aliados da noite para o dia, é natural que a sociedade cobre coerência.
Se Ciro decidiu caminhar ao lado de lideranças do PL, é uma escolha dele. A democracia permite isso. Se considera alguns desses aliados pessoas honradas, é um direito seu. Mas querer convencer a opinião pública de que essa aproximação não representa uma convergência política significativa talvez seja exigir demais da inteligência dos brasileiros.
No final das contas, o problema não é ter “bolsonaristas favoritos”. O problema é tentar fazer o país acreditar que aqueles que ontem eram apresentados como parte do problema agora surgem, subitamente, como parte da solução.
A política aceita muitas mudanças de posição. O que ela não costuma perdoar é a falta de memória. E a memória dos brasileiros ainda está muito viva para esquecer tão facilmente os acontecimentos que marcaram os últimos anos.
Porque, afinal, a pergunta continua sem resposta: onde estavam os bolsonaristas honrados quando o Brasil mais precisou deles?




