Política e Resenha

CARTA ABERTA A FLÁVIO JOSÉ: QUANDO A FONTE DOS CACHÊS SECA, APARECE O VERDADEIRO AMOR PELA BAHIA

 

 

 

Caro Flávio José,

Recebi com atenção sua manifestação de indignação diante da decisão de diversos municípios baianos de não manterem suas contratações para o São João de 2026 após as recomendações do Ministério Público da Bahia. Compreendo sua frustração. Nenhum artista gosta de perder contratos. Nenhum profissional aprecia ver sua remuneração questionada. Isso é humano.

Mas talvez seja necessário ampliar o olhar.

A Bahia ama o forró. Ama Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba Ramalho e ama também Flávio José. Seu nome faz parte da trilha sonora de muitos sertões, de muitas histórias de amor e de muitas noites juninas. Ninguém está negando sua importância artística.

O que está sendo discutido, porém, não é sua arte.

O debate é outro.

É sobre dinheiro público.

É sobre prioridades.

É sobre municípios que muitas vezes não conseguem oferecer atendimento médico digno, cujas escolas enfrentam dificuldades estruturais, onde faltam medicamentos básicos, transporte escolar adequado e investimentos em infraestrutura.

Em centenas de cidades baianas, a população convive diariamente com postos de saúde sem médicos suficientes, filas para exames, estradas vicinais abandonadas e serviços públicos precários. São municípios que dependem quase exclusivamente do Fundo de Participação dos Municípios e vivem sob permanente aperto financeiro.

Nesse contexto, o Ministério Público observou um fenômeno preocupante: em apenas quatro anos, a média dos cachês saltou de aproximadamente R$ 200 mil para cerca de R$ 700 mil. Não se trata de uma crítica pessoal a você. Trata-se de uma preocupação institucional diante de uma escalada de gastos sustentados pelo dinheiro do contribuinte.

E aqui surge uma pergunta inevitável.

Quando um município paga R$ 350 mil por uma apresentação de poucas horas, quem paga essa conta?

O prefeito?

O artista?

Não.

Quem paga é o cidadão.

É a dona Maria que espera meses por uma consulta especializada.

É o agricultor que precisa de uma estrada para escoar sua produção.

É o estudante que frequenta uma escola sem laboratórios.

É o trabalhador que financia o Estado através dos impostos.

A festa é importante. O São João é patrimônio cultural. Movimenta a economia, gera empregos temporários e fortalece a identidade nordestina. Mas nenhuma festa pode ser colocada acima das necessidades essenciais da população.

Sua declaração sugere que a Bahia estaria sendo ingrata com você.

Talvez a realidade seja mais complexa.

Talvez a Bahia não esteja recusando Flávio José.

Talvez a Bahia esteja apenas tentando encontrar um equilíbrio entre a alegria da festa e a responsabilidade fiscal.

O que chamou atenção em sua manifestação foi a afirmação de que deixou de vender datas para outros estados porque priorizou a Bahia durante sua carreira.

Mas essa relação sempre foi uma via de mão dupla.

A Bahia lhe contratou porque seu trabalho atraía público.

Os municípios lhe pagaram porque havia retorno artístico e econômico.

Não era caridade dos prefeitos.

Nem altruísmo do artista.

Era uma relação profissional.

Por isso, quando os contratos diminuem ou desaparecem, talvez não seja correto transformar a discussão em uma questão de amor ou gratidão.

Porque o amor verdadeiro por uma terra se revela principalmente quando os ganhos diminuem.

É quando a fonte dos grandes cachês seca que descobrimos quem estava apaixonado pela cultura e quem estava apaixonado pelo faturamento.

A Bahia continuará cantando forró.

Continuará dançando quadrilha.

Continuará celebrando Santo Antônio, São João e São Pedro.

O povo baiano continuará lotando as praças porque a festa nasceu dele, muito antes dos cachês milionários e dos contratos milionários.

Artistas passam.

Gestões passam.

Mas o povo permanece.

E é exatamente esse povo que o Ministério Público diz estar tentando proteger.

Portanto, Flávio José, sua indignação é legítima. Mas a indignação do cidadão que vê recursos públicos cada vez mais comprometidos com cachês elevados também é.

Talvez este seja o momento de uma reflexão coletiva.

Quanto vale uma festa?

Quanto vale uma apresentação?

E, sobretudo, quanto vale a saúde, a educação e a dignidade de uma população inteira?

Porque quando o dinheiro é público, a resposta não pertence ao artista.

Nem ao prefeito.

Pertence ao povo.

Padre Carlos