Política e Resenha

RTIGO – A FÁBRICA DA POLÊMICA E O TRIUNFO DA DESINFORMAÇÃO

 

 

 

Por Padre Carlos

Vivemos tempos curiosos. Em uma época em que a informação circula em velocidade recorde, a desinformação parece correr ainda mais rápido. E quando a desinformação encontra a disputa política, nasce um fenômeno cada vez mais comum: a tentativa de transformar uma simples falta de conhecimento técnico em um grande escândalo público.

Foi exatamente o que ocorreu recentemente em Vitória da Conquista com os lagos da Praça Tancredo Neves.

Bastou que algumas imagens da água com tonalidade esverdeada circulassem pelas redes sociais para que surgissem diagnósticos instantâneos, especialistas de ocasião e sentenças definitivas sobre uma suposta catástrofe ambiental. Em poucos minutos, aquilo que exigiria uma simples consulta aos técnicos da área transformou-se em munição política.

A lógica é conhecida. Primeiro cria-se a suspeita. Depois espalha-se a indignação. Por fim, tenta-se colar a narrativa na gestão municipal. O problema é que os fatos têm o desagradável hábito de atrapalhar certas versões.

A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, veio a público esclarecer de forma detalhada o funcionamento dos lagos. Explicou que a coloração esverdeada da água decorre da presença de plantas aquáticas e da clorofila produzida por elas. Informou que a água recebe oxigenação constante por meio do sistema de circulação ligado à cascata. Esclareceu ainda que os peixes recebem alimentação adequada diariamente e que existe monitoramento contínuo da qualidade da água.

Mais do que isso: a própria Secretaria anunciou medidas de manejo para controlar a população de peixes, garantindo o equilíbrio do ecossistema local.

Ou seja, aquilo que alguns apresentavam como um suposto abandono revelou-se uma situação perfeitamente conhecida e acompanhada pelos órgãos responsáveis.

É claro que o cidadão tem o direito — e até o dever — de fiscalizar o poder público. Uma democracia saudável depende justamente disso. O problema surge quando a fiscalização dá lugar à especulação, quando a dúvida se transforma em acusação e quando a busca pela verdade é substituída pela busca de curtidas, compartilhamentos e dividendos políticos.

Existe uma diferença enorme entre questionar e condenar previamente. Questionar é um ato de cidadania. Condenar sem conhecer os fatos é um ato de irresponsabilidade.

O mais curioso é que muitos dos que agora se apresentam como defensores dos peixes talvez sejam os mesmos que, ao visitar a praça, jogam pipoca, pão e restos de comida nos lagos, prática que os técnicos classificam como prejudicial aos animais e ao equilíbrio ambiental. Algumas vezes, o problema não está na gestão pública. Está na incapacidade de ouvir quem realmente entende do assunto.

As redes sociais criaram um ambiente em que qualquer fotografia isolada parece valer mais do que um laudo técnico. Uma imagem compartilhada milhares de vezes passa a ser tratada como prova absoluta, mesmo quando os especialistas explicam exatamente o contrário.

O resultado é uma sociedade permanentemente indignada e, frequentemente, mal informada.

Vitória da Conquista possui inúmeros desafios reais que merecem debate sério: saúde, mobilidade urbana, geração de empregos, infraestrutura e desenvolvimento econômico. Transformar a cor da água de um lago monitorado em crise política talvez renda manchetes momentâneas, mas não contribui em nada para resolver os problemas que verdadeiramente afetam a vida da população.

Quando a política abandona os fatos e passa a viver de narrativas, a verdade se torna a principal vítima. E quando a desinformação é utilizada como instrumento de disputa, perde a oposição, perde o governo e perde, sobretudo, a cidade.

Antes de transformar uma dúvida em denúncia, talvez valha a pena um gesto cada vez mais raro nos dias atuais: procurar a informação correta.

Afinal, nem toda água verde é sinal de problema. Às vezes, o verdadeiro problema está em quem prefere enxergar política onde existe apenas biologia.