Padre Carlos
Há notícias que informam. Há notícias que preocupam. E há aquelas que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
A inauguração de novas estruturas da Polícia Civil na Bahia deveria ser motivo de celebração. Afinal, fortalecer a segurança pública é uma obrigação do Estado e um desejo legítimo de toda a população. O problema começa quando, no meio da festa, surge um detalhe que ninguém deveria ignorar: duas viaturas destinadas a uma importante cidade do interior precisaram ser adquiridas com recursos de emendas parlamentares.
É aqui que o cidadão comum tem todo o direito de fazer uma pausa, coçar a cabeça e perguntar: espera aí… a segurança pública da Bahia agora depende da boa vontade de emendas parlamentares para comprar viaturas?
Se a resposta for sim, temos um problema.
Afinal, estamos falando de uma das funções mais elementares do Estado. Segurança não é favor. Não é presente de aniversário. Não é obra de caridade política. É dever constitucional.
Imagine a cena.
O crime organizado acorda de manhã e resolve expandir suas atividades. A polícia então responde:
— Calma aí, pessoal. Estamos aguardando a aprovação de uma emenda parlamentar para comprar combustível e talvez uma viatura nova.
Seria cômico, se não fosse preocupante.
Mais curioso ainda é a quantidade de fotografias, solenidades, discursos, apertos de mão e sorrisos que costumam aparecer quando uma simples viatura chega a uma cidade. Às vezes parece que estamos diante da entrega de um porta-aviões nuclear ou da inauguração de uma base espacial.
São duas viaturas.
Repito: duas.
Nada contra quem destina recursos. Emendas parlamentares têm sua importância e podem complementar investimentos públicos. O problema surge quando aquilo que deveria ser complementar passa a parecer essencial.
E aí surge uma segunda pergunta igualmente desconfortável: será que estamos diante de uma necessidade administrativa ou de uma oportunidade política?
Porque convenhamos: segurança pública é uma pauta extremamente popular. Poucas coisas rendem mais visibilidade do que aparecer ao lado de policiais, viaturas e fardas. O cidadão vê a foto, associa a imagem à ordem e à proteção e o político ganha alguns pontos preciosos na memória do eleitor.
É uma operação de marketing tão eficiente quanto antiga.
Enquanto isso, ninguém pergunta o essencial: qual é o orçamento anual da segurança pública? Quantas viaturas deveriam ser adquiridas diretamente pelo Estado? Quantos delegados faltam? Quantos investigadores são necessários? Quantas unidades precisam de reforma?
Essas perguntas são menos fotogênicas. Não rendem selfies. Não cabem facilmente em um vídeo de trinta segundos nas redes sociais.
No fundo, a questão não é sobre duas viaturas. É sobre o simbolismo delas.
Quando um governo precisa destacar que duas viaturas foram compradas por meio de emenda parlamentar, a mensagem que fica não é necessariamente de eficiência. Pelo contrário. A impressão é de que o Estado já não consegue cumprir sozinho uma de suas funções mais básicas.
E isso deveria preocupar mais do que tranquilizar.
A população quer policiais equipados, delegacias funcionando e criminosos enfrentando a força da lei. Pouco importa quem vai aparecer na fotografia da entrega. O cidadão quer resultado.
Porque o crime não pergunta de onde veio o recurso da viatura antes de agir.
E a segurança pública de um Estado não pode depender da disputa por créditos políticos, da corrida por manchetes ou da busca por alguns pontos a mais nas pesquisas de opinião.
Se chegamos ao ponto de transformar a entrega de duas viaturas em um grande espetáculo político, talvez a pergunta mais importante não seja quem entregou os veículos.
A pergunta é: por que o Estado não os entregou sozinho?





