Política e Resenha

ARTIGO – A COPA ESPORTIVA X A COPA BUSINESS: O QUE SE TORNOU A COPA?

 

Padre Carlos

 

Houve um tempo em que a Copa do Mundo era apenas futebol.

Era o menino descalço na rua de barro sonhando ser Pelé. Era o rádio de pilha ligado na janela. Era a bandeira improvisada no cabo de vassoura. Era a emoção coletiva de um povo inteiro que, por noventa minutos, esquecia suas dores para acreditar que onze homens poderiam representar uma nação.

Hoje, porém, a pergunta se impõe: a Copa ainda pertence ao futebol?

Talvez estejamos diante de duas Copas diferentes.

A primeira continua acontecendo dentro das quatro linhas. É a Copa Esportiva. Nela ainda sobrevivem o talento, a superação, a emoção e a imprevisibilidade que transformaram o futebol no esporte mais amado do planeta.

Mas existe uma segunda competição.

Uma disputa silenciosa, sofisticada e infinitamente mais poderosa.

É a Copa Business.

Nela não entram jogadores. Entram executivos.

Não se disputam gols. Disputam-se mercados.

Não há árbitros. Há acionistas.

Não existem torcedores. Existem consumidores.

Enquanto os atletas correm nos gramados, uma batalha muito maior acontece nos bastidores. Empresas multinacionais competem por exposição global. Plataformas digitais disputam audiências bilionárias. Marcas travam guerras silenciosas para ocupar alguns segundos na tela de um celular ou de uma televisão.

O futebol tornou-se um dos maiores produtos comerciais da humanidade.

O filósofo francês Jean Baudrillard talvez enxergasse nesse fenômeno a vitória da imagem sobre a realidade. O espetáculo tornou-se mais importante que o próprio acontecimento. A transmissão vale mais do que o jogo. O marketing vale mais do que a camisa. O contrato vale mais do que a tradição.

A Copa deixou de ser apenas um torneio esportivo para se transformar numa gigantesca feira global de negócios.

Os números impressionam.

Patrocinadores investem bilhões.

Emissoras pagam fortunas pelos direitos de transmissão.

Influenciadores digitais são contratados para transformar partidas em conteúdo.

Empresas utilizam o evento como plataforma para vender de tudo: carros, refrigerantes, bancos, apostas, aplicativos e até estilos de vida.

Não há nada de errado no fato de o esporte gerar riqueza.

O problema surge quando a lógica financeira passa a comandar a lógica esportiva.

Quando horários são definidos não para favorecer atletas ou torcedores, mas para maximizar audiências globais.

Quando clubes históricos se tornam marcas internacionais.

Quando jogadores são tratados como ativos financeiros.

Quando o torcedor deixa de ser apaixonado para se transformar em cliente.

Nesse momento, o futebol corre o risco de perder parte de sua alma.

O sociólogo Zygmunt Bauman observava que vivemos numa época em que tudo tende a se tornar mercadoria. Talvez o esporte seja uma das vítimas mais visíveis desse processo.

A emoção continua existindo.

Os gols ainda provocam lágrimas.

As arquibancadas ainda cantam.

Os craques ainda encantam.

Mas algo mudou.

O futebol que nasceu nos campos improvisados dos trabalhadores ingleses agora circula pelos corredores climatizados dos conglomerados financeiros.

A Copa Esportiva continua emocionando.

A Copa Business continua faturando.

E ambas convivem no mesmo estádio.

Talvez o maior desafio do século XXI seja impedir que a segunda engula completamente a primeira.

Porque, se um dia o negócio vencer definitivamente o esporte, o futebol poderá continuar gerando bilhões.

Mas deixará de produzir aquilo que nenhuma empresa consegue fabricar:

A magia.

Aquela mesma magia que faz um menino olhar para uma bola e acreditar que o impossível ainda é possível.

E quando a magia desaparecer, a Copa poderá continuar existindo.

Mas talvez já não seja mais a mesma.